Puxe na memória e me responda: Você conhece alguém que é fã do programa Big Brother Brasil? Não estou dizendo alguém que só assista, mas alguém que defenda o programa, fale que ele é interessante, seja pelo motivo que for. Todos que conheço falam mal do tal do BBB. Reclamam dos escândalos forçados, das edições fraudulentas, da forçação de barra e da apelação para se conseguir audiência. Mesmo assim, a atração global é um dos programas de maior audiência da televisão brasileira e seu faturamento é estratosférico, o que provoca a volta anual do Pedro Bial à telinha todos os meses de janeiro. Vamos sair um pouco da TV agora e vamos para a música. Quem é hoje o maior fenômeno adolescente do pop brasileiro? A resposta deve ser fácil: Restart. E quem aqui, com mais de 12 anos de idade já não se pegou fazendo alguma piadinha sobre o grupo de happy rock (seja lá o que isso signifique)? Os cabelos, as calças coloridas, os óculos. Tudo vira motivo de piada na internet ou entre amigos. Algumas até violentas e cheias de ódio gratuito contra os pobres meninos – particularmente acho que tem coisa muito pior aí revestida de chique que todo mundo engole sem reclamar, mas isso é outro assunto. Mas não tem um programa de TV atual que não sonhe em ter os jovens coloridos. Tudo isso aponta para um novo parâmetro no que chamamos de mundo das celebridades. No ano de 2011 o importante é aparecer, não importa como. É a nova versão – desta vez levada a sério – do “falem mal, mas falem de mim”. O pensamento do empresariado do mundo do entretenimento é que nós admiramos pessoas que estão na mídia e nem ligamos os motivos que a levaram lá. O filme “Assassinos por Natureza” (1994), de Oliver Stone, conta a saga de um casal de serial killers que se tornam celebridades mundiais por atravessarem os Estados Unidos assassinando pessoas. Os jovens imitam suas roupas, cortes de cabelo e atitudes sem se importarem com as atrocidades cometidas. Como a vida imita a arte, um dia poderemos ver essa situação. Então, vamos pensar positivamente: Por enquanto só o respeito a nossa cidadania e ao bom senso estão sendo exterminados. Não que seja pouca coisa, mas tudo tende a piorar, como já diria a Lei Murphy.
Certa vez li que nosso cérebro passa 90% do seu tempo no passado ou no futuro. Isso porque estamos todos nós pensando nas contas a pagar no dia seguinte ou relembrando nostalgicamente como era boa nossa juventude, infância, etc. Na arte acontece o mesmo, criando uma nuvem de poeira sobre nossos olhos, o que nos impede de ver o que passa à nossa frente neste exato momento. Pensei nisso ao ler o livro "Adorno", do professor de teoria literária Márcio Seligmann-Silva lançado pela coleção Folha Explica. Nem um dos pensadores fundamentais das teorias sobre comunicação de massa estava ileso de bradar contra sua época, em detrimento ao passado. Em trechos do artigo “Indústria Cultural e a Sociedade”, Theodor W. Adorno ataca o jazz dos anos de 1930 como símbolo da degradação estética. Aqui no Brasil, falavam o mesmo do samba e do chorinho e anos depois, do rock no resto do planeta. Todos esses estilos são hoje quase sagrados e acima de qualquer crítica. Mas o que nos faz olhar o passado sempre com ternura e o presente sempre com racionalismo crítico? Há uma teoria de que o passado nos é melhor, porque nossa vida atual está uma lastima. É uma explicação engraçada, mas que não dá conta de exprimir a totalidade do problema. Eu gosto de acreditar que tudo que nos envolve necessita de um certo distanciamento para ganhar sua verdadeira face simbólica diante de nossa vida. Um exercício ótimo, que costumo fazer com meus botões, é pensar em como eu receberia algumas manifestações artística e sociais caso fosse contemporânea a elas. Amaria logo de cara? Odiaria? Teria ressalvas?
O disco “Clube da Esquina” (1972) que reuniu um celeiro de talentos da música mineira foi um dos momentos mais emblemáticos da história da MPB, mas hoje não possui o mesmo número de seguidores que outros trabalhos do período, como “Tropicália” (1968) ou “Secos e Molhados” (1973). Milton Nascimento e seus parceiros do “Clube” achavam que acima de qualquer atitude, ação ou opinião escandalosa devia estar a música. Eles estavam errados? Não, mas a história não perdoa quem não sabe jogar seu jogo. Escrevo isso pensando em todos os acontecimentos envolvendo o Radiohead, banda inglesa que sem aviso divulgou que seu novo disco, “Kings of the Limbs” seria lançado ontem, provocando especulações de toda a imprensa mundial. Quando todos seguravam a respiração pelo álbum, o CD foi jogado na rede um dia antes, com direito a um videoclipe hermético da música “Lótus Flower”. Desde o final dos anos 90, Thom Yorke e sua turma manipulam com inteligência e habilidade a mídia, fãs e sua própria carreira, testando limites de divulgação em tempos de internet e de informações que se metamorfoseiam a cada instante. O grande mérito dos “cabeça de rádio” foi compreender seu tempo e jogar com ele, traduzindo-o em música e atitude. Foi isso que eles fizeram em 2001, com o CD “Kid A”, o primeiro a ser jogado para download na internet antes de seu lançamento oficial. Depois, em 2007, eles venderam “In Rainbows” com os fãs escolhendo pelo site do grupo o preço a ser pago. Mas e a qualidade do trabalho? É menos importante que essas sacadas de marketing (isso não deixa de ser marketing)? Claro que não. Nada disso se sustentaria sem uma obra forte e que se sustentasse sem suas brincadeirinhas “século 21”. “King of Limbs” é um longo exercício de camadas sobrepostas de influências dispares de rock, dubstep e kraut rock. Não é nem de longe o melhor trabalho do combo de Thom Yorke, mas talvez essa primeira percepção de impenetrabilidade faça parte do jogo planejado pelo grupo. A nós, resta aceitar o desafio.
Kate Moss está no Brasil. Fora do mundo das passarelas ela gosta de brincar de cantar e de dar pauta para revistas inúteis de celebridades. Mas gosto desse videoclipe do White Stripes, onde ela faz pole dance.
O ator James Dean, que virou simbolo estético e comportamental da segunda metade do século 20, tem sua imagem de loiro rebelde encrustada na nossa memória, o que nos leva até a esquecer que ele nasceu em 1931 (!) e que caso estivesse vivo estaria completando seu 80º aniversário nesta terça-feira.
É curioso o fato de um dos livros que melhor mergulha na alma americana dos anos 50 ser dirigido por um brasileiro. Isso só aumenta as espectativas de todos em relação ao filme "On the Road", que Walter Salles está dirigindo e cujas primeiras imagens já começaram a pipocar pela internet.
O brasileiro não gosta de afronta. Isso é um fato e é muito ruim para nossa evolução, principalmente artística. Afronta não quer dizer barraco, briga, ofensas pessoais. Nada disso. Falo da afronta intelectual, do debate civilizado e da importância de se negar conceitos anteriores. Mas qualquer negação do que nos é empurrado, transforma-se em um ato de violência pessoal, dá processo, briga na rua. Isso está nos deixando imobilizados há anos. O que as pessoas não entendem é que na arte existe todo um ciclo, um ecossistema do qual o artista, o jornalistas, o público e os críticos participam. Dias atrás, o cantor Lobão deu a seguinte declaração sobre Ivete Sangalo: “Ivete até é bonitinha, mas quando abre a boca estraga tudo”. Na internet milhares de fãs da baiana ficaram muito ofendidos. Bobagem. Lobão é mais esperto do que a média e sabe como as coisas funcionam. Quando ataca Ivete, na verdade está querendo impor seu trabalho, que vai na contramão do que Ivete faz, pensa e age. Não tem nada de errado nisso, é apenas uma delimitação de espaço, de postura. Ivete poderia ir no caminho contrário, falar que enquanto Lobão a crítica ela está milionária e atualmente dinheiro é a única medição do real sucesso de alguém e filosofias éticas são bobagens. Seria uma atitude sincera e também divertida. É hora de começar a jogar esse jogo.
Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.