1.17.2011

Distanciamento necessário


Só o tempo nos ensina o real valor das coisas. A constatação da genialidade ou do valor real de um artista de qualquer área raramente é perceptível no calor dos acontecimentos. Por isso, é comum assistirmos lendas surgirem anos após a morte de um artista. A lista desses renegados pelos seus contemporâneos é enorme: Van Gogh, Frank Kafka, Cartola (esse ainda recebeu algum reconhecimento no final da vida), etc.
Mas reconhecimento tardio não gera dinheiro para empresários e outros tubarões da indústria do entretenimento, então é preciso criar a lenda aqui, agora, já.
Veja Amy Winehouse, que passou a última semana fazendo shows no Brasil. Particularmente acho ela bastante talentosa, apesar de com apenas dois discos – um meia-boca, outro muito bom – ainda ter muito a provar. Torço por ela como artista e como pessoa, pois morrer antes dos 30 anos é bastante triste.
Mas me irrita algumas comparações que constantemente ouço dela com outras cantoras do passado. A mais absurda é com Billie Holiday. Não se trata apenas de uma questão artística, mas também de respeito pela vida. Amy é branca, classe média, inglesa, moderna, estudou em escolas razoáveis e tem empresários para limpar suas sujeiras e trapalhadas.


Billie nasceu em 1915. E nascer negra e miserável nos Estados Unidos neste período era quase uma sentença de morte, já que a Klux Klux Klan podia te pegar em alguma esquina caso você ousasse se dirigir ao sul do país.
Seus pais eram adolescentes e Billie foi jogada à própria sorte já na infância. Viveu de esmolar ou empregada doméstica aos oito anos de idade. Ainda criança foi estuprada e foi morar em prostíbulos.
Num deles, pediu para cantar e foi descoberta e chamada para gravar. Sua voz perfeita e sua dor interna fez dela uma cantora admirada, mas ainda sim rejeitada pelas elites brancas.
Mesmo viciada em drogas e alcoólatra produziu até o final da vida. Não havia tempo nem dinheiro para passar anos sem fazer shows ou gravar, como faz Amy.
Cantou com as big bands de Artie Shaw e Count Basie. E foi uma das primeiras negras a cantar com uma banda de brancos, em uma época de segregação racial nos Estados Unidos. Consagrou-se de vez apresentando-se com as orquestras de Duke Ellington e Louis Armstrong. Contra o talento não há preconceito que resista.
Morreu de overdose em 1959. O corpo parecia bem mais velho que seus poucos 44 anos. Um ano antes havia registrado “Lady in Satin”, com a voz já destruida, mas com um charme colossal que serviu de bíblia musical para cantoras futuras como Janis Joplin.
Amy passou os últimos dias sendo venerada e descansando em quartos de hoteis de luxo aqui no Brasil. Não tem culpa de ter melhor sorte que Billie. Mas compará-las é falta de respeito à velha Lady Day.

1.10.2011

Quando a paranóia vira regra


Há algum tempo deixei de lado uma brincadeira que mais dia, menos dia, me traria algum problema nesses paranóicos dias atuais. Mesmo ainda não tendo filhos, sempre gostei de crianças, e quando via alguma delas brincando por perto, acaba puxando papo, perguntando o nome, e quando se tratava de uma criança mais risonha até pedia um beijinho. Uma atitude comum até uns dez ou 15 anos atrás, mas que atualmente é vista com desconfiança – não sem motivos, claro. Os noticiários demonstram que casos de pedofilia estão por toda parte.
A visão de que há uma segunda e horrível intenção em todo e qualquer ato social está nos deixando numa situação de paranóia constante, que tenho até medo de pensar a que nível isso pode chegar no futuro.
Por exemplo, nesta semana a editora americana responsável pelos livros “Tom Sawyer” e “Huckleberry Finn”, do escritor Mark Twain trocou frases dos livros originais por causa da palavra “nigger” (Negro), considerada racista. Agora, os personagens africanos vítimas de racismo são chamados de “escravo”, desvirtuando a ideia original das obras.
Há poucos meses aconteceu o mesmo com o nosso Monteiro Lobato. O livro “Caçadas de Pedrinho” foi recusado pelo Conselho Nacional de Educação por racismo, que o considerou “perigoso para as crianças” por uma única passagem, onde a personagem Tia Nastácia “sobe numa árvore como um macaco”. Quando tinha uns 12 anos li a obra, e não lembro se ter adquirido pensamentos racistas em relação aos negros que, por sinal, era a maioria dos meus amigos na época.
Às vezes vislumbro um futuro apocalípticos, cheio de pedófilos, racistas, gente querendo nos “passar a perna”, roubar nosso dinheiro, nossas mulheres, nossas famílias. Só não sei se seremos capazes de distinguir o quanto isso é real e o quanto isso não é fruto de nossa própria paranóia com o próximo.
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PerfilLuciano Assis
Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
Perfíl do Blog
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O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.

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