2.22.2011

Radiohead ou a arte de se reinventar


O disco “Clube da Esquina” (1972) que reuniu um celeiro de talentos da música mineira foi um dos momentos mais emblemáticos da história da MPB, mas hoje não possui o mesmo número de seguidores que outros trabalhos do período, como “Tropicália” (1968) ou “Secos e Molhados” (1973).
Milton Nascimento e seus parceiros do “Clube” achavam que acima de qualquer atitude, ação ou opinião escandalosa devia estar a música. Eles estavam errados? Não, mas a história não perdoa quem não sabe jogar seu jogo.
Escrevo isso pensando em todos os acontecimentos envolvendo o Radiohead, banda inglesa que sem aviso divulgou que seu novo disco, “Kings of the Limbs” seria lançado ontem, provocando especulações de toda a imprensa mundial. Quando todos seguravam a respiração pelo álbum, o CD foi jogado na rede um dia antes, com direito a um videoclipe hermético da música “Lótus Flower”.
Desde o final dos anos 90, Thom Yorke e sua turma manipulam com inteligência e habilidade a mídia, fãs e sua própria carreira, testando limites de divulgação em tempos de internet e de informações que se metamorfoseiam a cada instante.
O grande mérito dos “cabeça de rádio” foi compreender seu tempo e jogar com ele, traduzindo-o em música e atitude.
Foi isso que eles fizeram em 2001, com o CD “Kid A”, o primeiro a ser jogado para download na internet antes de seu lançamento oficial. Depois, em 2007, eles venderam “In Rainbows” com os fãs escolhendo pelo site do grupo o preço a ser pago.
Mas e a qualidade do trabalho? É menos importante que essas sacadas de marketing (isso não deixa de ser marketing)? Claro que não. Nada disso se sustentaria sem uma obra forte e que se sustentasse sem suas brincadeirinhas “século 21”.
“King of Limbs” é um longo exercício de camadas sobrepostas de influências dispares de rock, dubstep e kraut rock. Não é nem de longe o melhor trabalho do combo de Thom Yorke, mas talvez essa primeira percepção de impenetrabilidade faça parte do jogo planejado pelo grupo. A nós, resta aceitar o desafio.

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Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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