Distanciamento necessário

Só o tempo nos ensina o real valor das coisas. A constatação da genialidade ou do valor real de um artista de qualquer área raramente é perceptível no calor dos acontecimentos. Por isso, é comum assistirmos lendas surgirem anos após a morte de um artista. A lista desses renegados pelos seus contemporâneos é enorme: Van Gogh, Frank Kafka, Cartola (esse ainda recebeu algum reconhecimento no final da vida), etc.
Mas reconhecimento tardio não gera dinheiro para empresários e outros tubarões da indústria do entretenimento, então é preciso criar a lenda aqui, agora, já.
Veja Amy Winehouse, que passou a última semana fazendo shows no Brasil. Particularmente acho ela bastante talentosa, apesar de com apenas dois discos – um meia-boca, outro muito bom – ainda ter muito a provar. Torço por ela como artista e como pessoa, pois morrer antes dos 30 anos é bastante triste.
Mas me irrita algumas comparações que constantemente ouço dela com outras cantoras do passado. A mais absurda é com Billie Holiday. Não se trata apenas de uma questão artística, mas também de respeito pela vida. Amy é branca, classe média, inglesa, moderna, estudou em escolas razoáveis e tem empresários para limpar suas sujeiras e trapalhadas.

Billie nasceu em 1915. E nascer negra e miserável nos Estados Unidos neste período era quase uma sentença de morte, já que a Klux Klux Klan podia te pegar em alguma esquina caso você ousasse se dirigir ao sul do país.
Seus pais eram adolescentes e Billie foi jogada à própria sorte já na infância. Viveu de esmolar ou empregada doméstica aos oito anos de idade. Ainda criança foi estuprada e foi morar em prostíbulos.
Num deles, pediu para cantar e foi descoberta e chamada para gravar. Sua voz perfeita e sua dor interna fez dela uma cantora admirada, mas ainda sim rejeitada pelas elites brancas.
Mesmo viciada em drogas e alcoólatra produziu até o final da vida. Não havia tempo nem dinheiro para passar anos sem fazer shows ou gravar, como faz Amy.
Cantou com as big bands de Artie Shaw e Count Basie. E foi uma das primeiras negras a cantar com uma banda de brancos, em uma época de segregação racial nos Estados Unidos. Consagrou-se de vez apresentando-se com as orquestras de Duke Ellington e Louis Armstrong. Contra o talento não há preconceito que resista.
Morreu de overdose em 1959. O corpo parecia bem mais velho que seus poucos 44 anos. Um ano antes havia registrado “Lady in Satin”, com a voz já destruida, mas com um charme colossal que serviu de bíblia musical para cantoras futuras como Janis Joplin.
Amy passou os últimos dias sendo venerada e descansando em quartos de hoteis de luxo aqui no Brasil. Não tem culpa de ter melhor sorte que Billie. Mas compará-las é falta de respeito à velha Lady Day.











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