
Há muitos anos Seu Agenor usa suas tardes de aposentado para caminhar pela pequena praça localizada no bairro onde mora. Quando mudou lá, ainda no ano de 1966, o local era tranqüilo, com casas espaçadas uma das outras e muito verde.
Observando a correria da criançada, ele pensa com seus botões: “No meu tempo, aqui era mais gosto!”
Hoje o cenário é diferente. Jovens se reúnem nas calçadas para conversarem em voz alta e ouvir música. “Música não, isso não é música. Falta àquela poesia como no meu tempo”, brada ele, já em casa na companhia da esposa.
Mas pior do que as músicas para Seu Agenor são os filmes que infestam a televisão. Explosões, correria, velocidade. Bons tempos quando ele podia pegar sua então nova namorada e ir ao cinema assistir a algum filme de cowboy, de preferência com John Wayne. Por que no tempo dele, macho tinha cara de macho.
O mesmo vale para as mocinhas de novelas, que tinham uma beleza natural, sem os excessos artificiais de hoje. “No meu tempo dava gosto ver novela”, já reclamou Seu Agenor.
O tempo é contado cronologicamente, mas em seu sentido prático tange a abstração. Já em sua seara mais poética nasce esse sentimento de querer capturá-lo para chamá-lo de nosso.
Conforme os anos passam, os momentos que se esvaem começam a se tornar ainda mais nosso, talvez pela diminuição da coletividade que com a gente dividiu “àquele” tempo.
Se pudesse, Seu Agenor traria “Seu tempo” de volta, mas nos momentos de angustia, pensa que sua vontade de potencia é a prova de que o tempo que ele achou ser dele não pode ser dividido como numa reforma agrária. Pena.
Mas hoje é domingo. Os netos devem vir visitar Seu Agenor. Quando isso acontece, passado e presente se encontram e ele ganha o século 21 de presente e descobre que o tempo é de quem pegar.