Apesar da demora está aqui o set list da edição 52 do Radiola. No clássico da semana tem como destaque o grupo Novos Baianos, que acaba de ganhar documentário. Nos blocos, você ouve discos gravados no exílio e também um passeio pelas montanhas escocesas com grupos como Teenage Fanclub, Delgados e Belle and Sebastian. Nesta semana não devo gravar a edição 53 em razão da correria do feriado, mas enquanto isso dá para você colocar os programas anteriores em dia. Até semana que vem!
Clássico da Semana 1 - Novos Baianos - "A Menina Dança" (1972)
Bloco 1 (Bandas escocesas) 1 - Teenage Fanclub - "Dezember" 2 - Belle and Sebastian - "Jonathan David" 3 - Delgados - "Pull the Wires From the Wall"
Bloco 2 (Discos gravados no exílio) 1 - The Rolling Stones - "Rip This Joint" (1971) 2 - David Bowie - "Sound and Vision" (1977) 3 - Caetano Veloso - "It´s Long Way" (1972)
Relançamentos 1 - Black Sabbath - "Evil Woman" (1970) 2 - Eric Clapton - "After Midnight" (1970)
Lançamento 1 - Johnny Cash - "Aloha Oe" (disco: Ain't no Grave)
BG - Homenagem ao músico do Mali, Ali Farka Toure (1939-2006)
Há algum tempo entrou em moda usar a palavra “Kafkaniano” para acontecimento que enfrentassem nossa limitada lógica. Muita coisa passou a ser “kafkaniana”, assim como temos fatos “dantescos” acontecendo aos montes. A popularização e uso cotidiano das palavras as fazem perder a essência. Ou alguém acha que todos os usuários dos termos já leram a obra de Frank Kafka (1883-1924) ou Dante Alighieri (1265-1321)? O mesmo acontece com expressões como “paciência de Jó” que tem seu nascedouro na Bíblia, na história do homem crente que tem sua fé testada por Deus. Essa dicotomia entre origem e instrumento de uso da língua não chega a ser um sacrilégio. Pelo contrário, é um caminho natural das coisas e da arte de uma maneira geral. Não é apenas intelectual que tem o direito de usar a palavra “fofoca” (gossip, em inglês) porque ele é um dos poucos que sabe trata-se de uma invenção de William Shakespeare (1564-1616). Mas a defasagem ou inversão do sentido de algumas palavras ou expressões atualmente é, no mínimo, preocupante. Dias atrás vi o comercial na TV do programa “Ídolos” da rede Record de televisão. Um dos apresentadores dizia que para vencer o programa era necessário estilo, talento e “acima de tudo atitude”. A mesma atitude era defendida pela banda de rock CPM 22 em um comercial de aparelho de barbear. Não lembro exatamente o texto da propaganda, mas era mais ou menos assim: “Quem tem atitude usa...”. Não sou tão velho, mas gosto de pensar que antigamente as palavras valiam alguma coisa. Ter atitude era uma desvantagem social, já que podia lhe meter em problemas. Usar cabelo comprido na época da ditadura era uma atitude ousada, já que alguma autoridade podia invocar contigo e lhe prender. Era preciso coragem para ser diferente. Mas essa não é a única palavra que tem seu sentido se esvaindo. O cineasta James Cameron, diretor de “Avatar”, foi chamado de “gênio do cinema” por um jornal aqui do interior. Pouco antes o apresentador de TV Raul Gil convidou o compositor Jorge Vercilo para um quadro de seu programa, o invocando dos bastidores ao soltar que ele era “um dos gênios da música brasileira”. Outro apresentador de TV local afirmou que o músico Hudson, àquele da dupla Edson e Hudson, “é um dos maiores guitarrista do mundo” (não estou brincando, eu estava ao lado dele quando ele soltou essa pérola). Teve uma época que o rótulo era algo muito restrito, Orson Wells e Charles Chaplin eram gênios do cinema. Noel Rosa, Ray Charles, Miles Davis e John Lennon eram na música. Jimi Page, Eric Clapton e Jimi Hendrix eram os maiores guitarrista do mundo. Vejo tal mudança não como um reflexo de uma possível imbecilização das novas gerações, mas de uma perda do sentido da própria palavra que é usada mais como marketing do que em seu sentido literal. Não importa se a Lady Gaga é uma artista iniciante: Ela é o maior fenômeno da música pop desde Michael Jackson simplesmente porque é mais interessante para os negócios. Cristiano Ronaldo será o novo Pelé, já que está na hora de termos outro atleta enchendo estádios pelo mundo. Não importa se eles vão dar conta do recado, já que negócios não têm comprometimento com resultados históricos, somente numéricos. Millôr Fernandez disse certa vez que não existe ateu no momento anterior à queda de um avião. No século 21, não existe coerência quando estamos próximos de encher nossos bolsos. Somos todos ateus, graças a Deus!
Mestre Eric Clapton completa 65 anos nesta terça-feira. Ao invés de ficar aqui teorizando sobre a importância dele para a música, vou apenas deixar vocês com esse video do maior bluseiro nascido branco e fora dos Estados Unidos.
Sei que isso aqui é um blog de Cultura e comentários sobre a morte do grande Armando Nogueira, um homem tão ligado ao futebol, nesta segunda-feira aos 83 anos caberia melhor entre o pessoal do esporte. Mas Armando ia muito além dessas categorizações bestas que muitas vezes inventamos em jornais, revistas e livros. "Mestre Armando Nogueira", como era chamado pelas gerações posteriores via antes de tudo o futebol como arte. Seus textos eram ensaios sobre a superação humana frente às batalhas épicas travadas nas quatro linhas de algum estádio. Não à toa foi o responsável pela eterna definição dada a Mané Garrincha: "O anjo das pernas tortas". Lembro que durante a Copa de 1994, nos Estados Unidos, ele bateu duro na seleção de Carlos Alberto Parreira. Mesmo quando o time comandado por Dunga no meio campo foi campeão mundial, ele não voltou atrás. Para ele, mais que ser campeão, o que importava era a estética, a beleza visual rara aos jogadores brasileiros. Ser campeão era só um detalhe, que não fazia sentido sem a beleza. Outro momento belo de Armando foi quando ele comandava o Jornal Nacional, em 1989. Ele era um dos homens mais poderosos da Rede Globo, quando uma decisão interna da emissora pediu para que o debate entre os candidatos Lula e Fernando Collor fosse editado dando a entender que Collor havia ido muito bem. Era interesse da família Marinho que o alagoano vencesse àquela eleição e o último debate seria decisivo. Armando pediu demissão no dia seguinte. O documentário acima se chama "Todos os Corações do Mundo" e foi lançado após a Copa de 1994. Todo o texto é do mestre que com certeza vai fazer muita falta aqui.
Muito boa essa coleção que a editora Abril lançou em bancas de jornal. São 30 obras em 35 volumes (algumas são edições duplas)que fazem um apanhado de obras fundamentais da história da literatura mundial, do nosso Machado de Assis a escritores que marcaram os idiomas france, italiano, grego, espanhol e alemão. Algo que merece ser citado é a qualidades das traduções, algo que sempre ficou a dever em outras coleções como essas lançadas em bancas no passado. O titulo dedicado a William Shakeaspeare, por exemplo, tem tradução de Bárbara Heliodora, a maior especialista no bardo inglês que temos em terras brasileiras. Cada livro sai por R$ 14,90, um pechincha em se tratando de valores no livros.
Hoje é centenário de nascimento do cineasta japones Akira kurosawa, um dos mais importantes de todos os tempos. A cena inicial de "Os Sete Samurais" diz muito sobre a capacidade de expressar ideias através de imagens desse mestre do cinema mundial: Um velho samurai caminha por uma trilha quando chega a uma bifurcação na estrada. De um lado só vê estrada, do outro, vê um braço cortado. Ele ruma pelo lado do braço, pois sabe que lá vai conseguir emprego como "matador". kurosawa diz tudo usando apenas a câmera. É cinema puro!
É impressionante como a morte possui efeitos estranhos nos meios de comunicações e em nós mesmos, que continuamos aqui – por enquanto – assistindo a passagem (gosto dessa expressão) de quem se vai. Nas últimas semanas a música perdeu várias figuras importantes e a maneira com que essas perdas foram sendo divulgadas diz muito sobre o país e o mundo em que moramos. No dia 23 de fevereiro o tempo nos levou Sabá, contrabaixista que criou o grupo Som Três, que entre 1967 e 1970 tinha em sua formação César Camargo Mariano (piano), Toninho Pinheiro e o próprio Sabá. Quando Mariano começou a sair com Elis Regina, o grupo foi chamado para acompanhar a Pimentinha, mas Sabá e Toninho acharam melhor seguir com outros projetos, pois já tinham trabalhado com Elis na época do Fino da Bossa (1965-1966) e conheciam bem o gênio ruim da cantora quando o assunto era se estressar com músicos quando algo saía errado. Você leu algo sobre a morte de Sabá? Imagino que não, pois nenhum jornal deu sequer uma nota de roda pé. Foi como se ele não existisse. Tinha 83 anos e um currículo acompanhando uma legião de grandes nomes da MPB. Na quarta-feira outro mestre os deixou precocemente. O americano Alex Chilton teve um infarto aos 59 anos, calando uma das vozes mais coerentes do rock americano. Aos 16 anos ele formou a banda Box Tops, em 1967, um combo de soul e blues. Fizeram um enorme sucesso com a música “The Letter”, mas quando gravadoras e produtores começaram a se meter com a banda ele mandou todos às favas e foi seguir sozinho. Em 1972 formou o Big Star, uma das melhores bandas americanas dos anos 70, uma época maravilhosa para a música em todo o mundo. Comercialmente não deu certo, mas o quarteto deixou três obras primas gravadas que foram a base onde REM, Wilco e tantos outros construíram suas reputações. Nos últimos 30 anos, Chilton lavou pratos, foi mecânico e quando o tempo dava fazia shows. Preferia isso a vender-se ao sistema, esse ser tão disformes que nos engole a todos, menos os puros de coração, como Chilton. Era um dos meus heróis. Você ficou sabendo de sua morte? Imagino que não, pois os meios de comunicações são implacáveis aos que não brincam seu jogo.
Paulo José
Por falar em morte, estive na semana passada com o ator Paulo José, que aos 72 anos continua em plena atividade. Sofrendo do mal de Parkinson – que ele chama de Parkinson de diversão – ele respondeu a várias perguntas dos jornalistas sobre o assunto. Atencioso e carismático, ele não se importa de falar sobre a doença. Diz que trata-se de um condenação à morte, mas justifica: “Eu estou condenado à morte por essa doença, mas vocês também estão pelo simples fato de estarem vivos”. Gênio!
O Radiola desta semana faz uma homenagem ao cantor, guitarrista e compositor Alex Chilton, um dos principais nomes do rock americano da década de 1970 e que morreu na última quarta-feira aos 59 anos. Mas não é só isso. O programa desta semana traz o mestre do blues BB King, que fez show no Brasil neste final de semana, além de músicas de Buddy MIles, Lobão, Garbage e um dos pioneiros do rap: Gil Scott Heron.
Clássico da semana 1 - BB King - "The Thrill is Gone"
Bloco 1 (Banda lideradas por bateristas) 1 - Buddy Miles - "The Way I Fell Tonight" 2 - Garbage - "Silence is Golden" 3 - Lobão - "Dilema"
Bloco 2 (Homenagem a Alex Chilton) 1 - Box Tops - "The Letter" 2 - Big Star - "September Gurls" 3 - The Cramps - "Surfing Bird"
Lançamento 1 - The Hotrats - "THe Crystal Ship" (disco: Turn Ons) 2 - Gil Scott-Heron - "Me and the Devil" (disco: I'm New Here)
BG - Fela Kuti, músico nigeriano e criador do estilo afro beat.
Existe toda uma movimentação em volta do cinema 3D que pode muito facilmente nos dar a impressão de que o futuro da sétima arte será inapelavelmente nesta direção. O sucesso de “Avatar” realmente abriu um caminho sem volta para a popularização do formato, mas isso naturalmente não será regra. Evidente que mudanças estão previstas para todas as artes, não vamos aqui fazer como os grandes nomes do cinema mudo que criticaram a chegada das falas aos filmes a partir do começo dos anos de 1930. Mas o domínio do cinema 3D esbarra numa questão muito simples: a terceira dimensão não funciona para todos os formatos. Ver uma experiência como “Avatar” tendo a impressão de estar dentro da cena é uma coisa, mas imagine ver um drama desta forma? Uma comparação mais simples e eficaz: Na última sexta-feira chegou aos cinemas o novo filme de Martin Scorsese, “Ilha do Medo”. A elegância narrativa de Scorsese morre em qualquer outro plano que não seja o que estamos acostumados. Daqui há um mês, veremos a estreia de Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton. Trata-se de um filme que estou esperando há anos e creio que o 3D é o formato perfeito para assisti-lo. Resumindo: O futuro terá espaço para todos.
Na última semana foi lançado em todo o mundo o disco "Valleys of Neptunes", um disco com várias canções inéditas de Jimi Hendrix, cuja morte completa 40 anos neste 2010. Além de duas faixas desse trabalho, esta edição do Radiola ainda destaca os novos trabalhos de Sá, Rodrix e Guarabyra, faz uma homenagem ao cantor, guitarrista e compositor Mark Linkous, que cometeu suicidio há poucos dias. The Smashing Pumpkins, Caetano Veloso, Patti Smith e Guns'n'Roses também estão no programa, cujo link está no final deste post.
Clássico da Semana
Sociedade da Gra Ordem Kavernista - "Êta Vida" (1971)
Bloco 1 (Bandas que perderam -quase- todos os integrantes)
1 - The Smashing Pumpkins - "Ava Dore" 2 - The Cure - "A Night Like This" 3 - Guns'n'Roses - "Used to Love Her"
Bloco 2 (Suícidas) 1 - Sparklehorses - "Little Girl" (Mark Linkous) 2 - Caetano Veloso - "Cajuína" (Homenagem ao poeta Torquato Neto) 3 - Patti Smith - "Smell Like Teen Spirit" (Homenagem a Kurt Cobain)
Lançamentos 1 1 - Pouca Vogal - "Além da Máscara" (Disco: Ao Vivo em Porto Alegre) 2 - Sá, Rodrix e Guarabyra - "Caminho de São Tomé" (disco: Amanhã)
Lançamento 2
Jimi Hendrix - "Valleys of Neptunes" e "Bleeding Heart" (Disco: Valleys of Neptunes)
BG - Homenagem a Johnny Alf, falecido compositor precursor da bossa nova.
Se você é leitor deste blog e por acaso ganhar na Mega Sena nos próximos dias aceito como presente esse box set com 70 (!) Cds com todo o material que o jazzista Miles Davis gravou para a Columbia entre os anos de 1950 e 1990. Poucos músicos na história conseguiram transformar a música popular numa manifestação tão grandiosa de arte. Outro feito de Miles que jamais será alcançado é o fato dele ter revolucionado um mesmo estilo musical por quatro vezes. Na década de 40 participou ativamente - apesar de não liderar - na fundação do be bop. Dez anos depois criou o Cool jazz com a obra prima "Kind of Blue". Nos 60, deu as bases para o jazz fusion e nos 80 abriu caminhos para o jazz rap e o trip hop. Era um mistérios até para os fãs, pois ninguém nunca sabia para que lado iria no minuto seguinte. Talvez por ser boxeador na juventude, sabia que para sobreviver era necessário surpreender os adversários e atacá-los por onde menos esperavam.
O cartunista Glauco morreu da maneira mais estúpida que alguém pode morrer. Foi assassinado junto com o filho, de 25 anos, em um assalto à sua casa na cidade de Osasco. Não tenho nenhum comentário a fazer sobre o assunto, a não ser que fiquei chocado com a violência da morte. Já sobre o cartunista tenho muitos comentários. Cresci lendo seus quadrinhos, assim como os de Angeli e Laerte. Dos três era o que eu menos admirava, mas adorava sua anarquia que não poupava nada, nem ninguém. Ele não tinha o texto afiado de Angeli, nem o traço poético do Laerte, mas tinha uma linguagem mais que direta, popular, suja. Geraldão, o menino com complexo de édipo que sonhava "pegar a mãe" é um simbolo do humor da abertura política. O Brasil dava tchau a anos e anos de ditadura militar, então os humoristas perdiam a obrigação de usarem o humor como arma política. Nascia um novo tempo, mais aberto e sem amarras. Que a violência que acometeu Glauco e sua família não nos tire mais pessoas tão boas que viveu de nos dar alegria, transformando em piadas as tragédias diárias desses país.
O ator Corey Haim, que fez sucesso nos anos 80 com vários filmes que eu via na Sessão da Tarde morreu nesta quarta-feira, vítima de uma overdose acidental. Tinha 38anos e foi mais uma vítima do estilo de vida das celebridades. Ou no caso dele, do estilo de vida de uma celebridade decaída. Um fim triste para alguém que protagonizou filmes tão divertidos como "Sem Licença para Dirigir".
A atriz francesa Marion Cotillard, que encarnou de maneira maravilhosa a cantora Edith Piaf no filme “Piaf – Um hino ao amor”, é a nova garota propaganda da marca Dior. Até aí tudo bem, mas esse primeiro comercial com a linda atriz fazendo "cover" do grupo escocês Franz Ferdinand vale o o merchan. E não se esqueça: O Franz estará no Brasil a partir da próxima semana para uma série de shows que valem muito a pena.
Feliz Dia Internacional das Mulheres a todas vocês mulheres. E para comemorar essa data, o Radiola desta semana é feito só por mulheres. Tem para todos os gostos e idades. Destaque para os novos trabalhos da harpista Joanna Newsom, que acaba de lançar um disco triplo (!) e para o novo single do grupo Hole. Vem nessa que tá uma beleza.
Clássico da Semana 1 - Janis Joplin - "Me and Bobby Macgee" (1970)
Bloco 1 (grupos formados só por mulheres) 1 - The Ronettes - "Be My Baby" 2 - As Mercenárias - "Polícia" 3 - L7 - "One More Thing"
Bloco 2 (Mulheres que comandam bandas só de homens) 1 - Suzie Quatro - "Heartbreak Hotel" 2 - Rita Lee e Tutti Frutti - "Cartão Postal" 3 - The Pretenders - "Night in my Veins" 4 - PJ. Harvey - Black Hearted Love"
Relançamentos 1 - Dusty Springfield - "Litlle By Little" (Disco: Complete BBC Session) 2 - Judee Sill - "The Kiss" (Disco: Abradadabra)
Lançamentos 1 - Joanna Newsom - "Easy" (disco: Have one on Me) 2 - Hole - "Skinny Little Bitch" (Single do disco Nobody's Daughter)
"Avatar" é uma obra cinematográfica histórica. No futuro, quando filmes em 3D forem tão comuns quanto ver "cinema em cores" atualmente, nossos filhos e netos vão ler nos livros de histórias que quem popularizou o formato foi James Cameron e seus homens azuis, numa história que reunia ecologia, aventura, ficção cientifica e efeitos especiais de última geração (para 2010). Durante a história muitos filmes mudaram a cara do cinema. "Guerra nas Estrelas" é o que mais se aproxima de "Avatar" nesta comparação. Mudou tudo, mas não para melhor. Por todos esses elementos é uma grande justiça que a Academia de Cinema de Hollywood tenha dado seis Oscars para "Guerra ao Terror". Um filme de baixo orçamento, bem dirigido, com roteiro esperto e uma diretora que soube levar a história de homens "viciados em guerra" de maneira original e verdadeira. E mais: tocou numa ferida do ocidente que ainda permanecia aberta: A Guerra do Iraque. Por tudo isso, hoje é um grande dia para o cinema. O dia que Davi derrutou Golias com inteligencia. Que outros diretores sigam o mesmo caminho e que o cinema do futuro seja mais parecido com "Guerra ao Terror" do que com "Avatar".
Algumas afirmações “oficiais” podem ser feitas com facilidade sobre a bossa nova. Que ela foi o marco da modernização da música brasileira e nasceu com o lançamento do compacto “Chega de Saudade” (1958), de João Gilberto, são duas delas. Mas há uma “verdade” que poucos se deram ao trabalho de expor aos quatro ventos. A de que antes de existir João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Garota de Ipanema e tantos outros símbolos bossanovisticos existia Johnny Alf, que faleceu nesta quinta-feira aos 80 anos. Quando a música brasileira ainda gritava com as interpretações empostadas dos cantores do rádio, no começo da década de 1950, lá estava Johnny, com seu piano harmonicamente rico acenando ao jazz americano e sua voz quase sussurrada e de timbres aveludados. Como tudo que dizia respeito a influência dos Estados Unidos na cultura brasileira, o pianista foi criticado. E sua personalidade tranqüila não fez questão de se opor às acusações mais burras. Mesmo nas comemorações aos 50 anos da bossa nova, em 2009, Johnny foi esquecido. Pouco se falou dele e de sua grande importância no estilo. Tomara sua morte faça nascer sua obra entre as novas gerações. Antes tarde do que nunca não deixa de ser uma verdade a que a memória musical brasileira sempre é obrigada a recorrer por desatenção eterna.
Como é estranho esse mundos dos espetáculos mundial. Nos últimos meses tudo o que se falou por aí foi do fim dos Aerosmith, dos problemas com drogas de Steve Tyler, etc e tal. Parecia que a banda estava em sua reta final após quase 40 anos de atividades. E não é que acabou de chegar aqui na redação a informação que o grupo passa pelo BRasil no dia 29 de maio! O concerto será no Parque Antártica e os ingressos começam a ser vendidos para clientes Credicard, Citibank e Diners em 13 de março. A bilheteria só abre para o público no dia 20. Os valores ainda não foram divulgados.
No cinema, Plano sequencia é uma cena longa sem cortes. Um exemplo genial é a do filme "Festim Diabólico" (1948), de Alfred Hitchcock. O longa metragem tem apenas um único corte, que mesmo assim é escondido pelo cineasta. Mas há outros planos sequencias geniais na história do cinema. De bate pronto dá para lembrar de Stanley Kubrick e Jean Luc Godard. Mas agora apareceu um que vem levando cinéfilos e cineastas à loucura. Trata-se da abertura de "O Segredo de Seus Olhos", do argentino Juan José Campanella. O longa metragem é um dos favoritos ao Oscar de "Melhor Filme Estrangeiro" na cerimônia do próximo domingo. Pode não levar a estatueta, mas já está na história. Durante cinco minutos uma câmera passeia pelos céus e entra em um estádio de futebol, passando pelo campo e indo parar no meio da arquibancada. Em nenhum momento a cena é cortada. Se alguém descobrir como foi possivel gravar essa cena, me avisem, por favor.
Pelos primeiros e-mails que eu recebi este Radiola está agradando muito a todos. Também pudera, tem uma salada de gênios da música americana (Ray Charles, Stevie Wonder), raridade de grandes nomes brasileiros (Tim Maia, Rita Lee, Zé Ramalho), lançamentos ao vivo de dar água na boca (REM, Blur, Tom Waits) e a nova banda do sempre polêmico Jello Biafra, o eterno cabeça dos Dead Kennedys. Ouça aí:
Clássico da semana 1 - The Jam - "The Bitterest Pills" (1982)
Bloco 1 (Artistas cegos) 1 - Ray Charles - "Hit the Road, Jack" 2 - Stevie Wonder - "I Believe" 2 - Blind Boys of Alabama - "Old Blind Barnabas"
Bloco 2 (discos renegados) 1 - Tim Maia - "Universo em Desencanto" (do disco Racional 1 - 1975) 2 - Rita Lee e Lucia Turnbull - "Festival Divino" (do disco Cilibrinas do Edén - 1973) 3 - Zé Ramalho e Lula Cortes - "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" (do disco Pâebiru - 1975)
Lançamentos 1 (Só Cds ao vivo) 1 - Blur - "Out of Time" (All The People - Live At Hyde Park) 2 - REM - "Electrolite" (Live at OLympia) 3 - Tom Waits - "Dirt in the Ground" (Glitter and Doom)
Lançamentos 2 1 - Jello Biafra and the Guatanamo Scholl of Medicine - "The Terror of Tinytown" (Audacy of Hype)
BG - Som Três - Homenagem ao contrabaixista Sabá, falecido na semana passada.
Não conheci o intelectual, bibliófilo e empresário José Mindlin, que faleceu neste domingo. Os poucos que o conheciam costumam se lembrar dele como um grande colecionador de livros, dono de cerca de 50 mil exemplares, alguns deles raríssimos. Mas Mindlin era muito mais que isso. Era um entusiasta da cultura, que ele via como uma saída possível (e agradável) para o acalmar da alma humana. Ficou rico como empresário e advogado, mas diferente da maioria dos empresário brasileiros não passava os dias contando dinheiro, calculando lucros e espalhando empáfia de seus sucessos. Pelo contrário. Era na dele, preocupado com o país e com a importância da leitura entre as classes mais pobres. Em 2006 doou toda sua coleção para a USP, num gesto que diz muito sobre ele. Certa vez numa matéria sobre o Dia do Livro tentei contatá-lo para colher algumas palavras sobre o assunto. Não foi possível porque na época ele tinha acabado de perder sua esposa e havia pedido a sua assessoria para cancelar alguns compromissos. Hoje me arrependo de depois não ter tentado novamente.
Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.