Acabou de bater aqui na redação: A assessoria do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado anunciou que os integrantes desfizeram a banda. Uma pena, tratava-se de uma das formações mais interessante surgidas na música brasileiras nos últimos dez anos. Ao vivo então, eles eram fantásticos. Quem já viu sabe: Eram teatrais, intensos, poéticos.
E aí, se divertiram no Carnaval? Espero que sim, seja pulando em algum salão, seja em casa sem fazer nada o que também é legal. Espero também que tenham gostado do Radiola que entrou no ar durante a folia, com músicas que tivessem a ver com o Carnaval, seja o do Brasil ou o de New Orleans. Se não ouviu, o link tá no final deste post, logo depois do set list do programa que deixo aqui, como faço religiosamente todas as semanas. Ah, mas nem tudo é festa: Tem uma homenagem ao falecido Pena Branca e uma série de lançamentos que inclui os novos trabalhos de Charlotte Gainsbourg, Massive Attack e Flaming Lips. Como diria Goulart de Andrade: Vem comigo!
Clássico da semana: Pena Branca - "Cuitelinho (2008)
Bloco 1 1 - Dr. John - "Iko, Iko" 2 - Credeence Clearwater Revival - "Looking' for Reason" 3 - Wild Magnolias - "Soul, Soul, Soul"
Bloco 2 1 - Rumo - "Carnaval do Geraldo" 2 - Chico Buarque - "Quem te Viu, Quem te vê" 3 - Tereza Cristina e Grupo Semente - "Prá Que Discutir com Madame"
Lançamentos 1 1 - Charlotte Gainsbourg - "Heaven Can Wait" (disco: IRM) 2 - Massive Attack - "Splitting the Atom" (disco: Heligoland)
Lançamentos 2 1 - The Flaming Lips - "Speak to me/ Breath, Us and Them (disco: The Dark Side of the Moon)
Triste e trágica a morte do comediante Arnaud Rodrigues, na noite desta terça-feira. Conhecido pelas gerações mais novas apenas como um dos tipos do programa "A Praça é Nossa", do SBT, Arnaud era um grande ator, dono de tipos inesqueciveis da TV brasileira como Soró, o imigrante nordestino ingênuo da novela "Pão Pão, Queijo Queijo". Mas um dos projetos mais cultuados é a parceria musical com o também humorista Chico Anysio, que em 1976 gravou o disco "Baiano e os Novos Caetanos", uma bela brincadeira homenagem com a MPB da época. O primeiro álbum da dupla, inspirada em Caetano Veloso e Gilberto Gil é ótimo, Um passeio pelo funk e pela música nordestina.
Vencedora do prêmio de melhor atriz no último festival de Cannes, Charlotte Gainsbourg lança "IRM", seu terceiro e melhor disco, mostrando que realmente anda numa bela fase de sua vida. Filha do genial Serge Gainsbourg, um dos maiores compositores e cantores da frança, e da atriz Jane Birkin, a primeira atriz a fazer um nu frontal no clássico "Blow Up" (1966), de Michelangelo Antonioni, Charlotte mostra cada vez mais tranquilidade nas duas searas. Mas ela não é responsavel sozinha pelas qualidades de "IRM". O cantor americano Beck ficou encarregado da produção do álbum, dando um clima mais leve e melódico ao álbum, algo que seu disco anterior, "5:55" ficou a dever ao abusar dos climas exageradamente etérios. Acima, o clipe de "Heaven Can Wait", que tem participação do próprio Beck.
O que aconteceu no ano em que você nasceu? Isso é o que pergunta - e responde - o site "what happened in my birth year", que dá uma lista do que de mais relevante se deu na data em que você veio ao mundo, sempre usando como destaque os acontecimentos do cinema. Ao digitar 1978, que foi o ano em que nasci, fiquei sabendo que o grande sucesso de bilheteria do ano foi "Grease" e o filme com mais Oscar na cerimônia daquele ano foi "O Franco Atirador", com direito a um Oscar de melhor ator coadjuvante a Jon Voight, o pai de nada mais, nada menos que Angelina Jolie. O texto é em inglês, mas com um conhecimento básico na lingua de William Shakeaspare dá para acompanhar e se divertir.O endereço é o whathappenedinmybirthyear.com
Como nasci com dois pés esquerdo, sou uma pessoa completamente inapta para a dança. Mas já comecei a ganhar novas esperanças de um dia ser tão bom quanto o Fred Asteire, após ver esse video do bruta montes mor Mike Tyson dançando (e muito bem!) em um programa de TV. Agora só nos resta o Sylvester Stallone ganhar o prêmio de melhor ator no festival de Cannes deste ano, a Susan Boyle reaparecer tão gostosona quanto a Shakira e a Shakira reaparecer tão boa cantora quanto a Maria Callas. Ah, a superação de limites...
Em todos esses anos trabalhando como jornalista na área cultural sempre me chamou a atenção o fato de que o talento de alguns artistas é quase sempre inversamente proporcional a sua simplicidade. E de todos os grandes nomes que já tive e honra de conhecer um dos que mais me trouxe felicidade foi Pena Branca. Simples como sua obra, o cantor que faleceu nesta segunda-feira era uma extensão de sua arte: caloroso, direto, feliz em manter suas raízes. Na última vez que o entrevistei, em 2008, ele estava feliz com o resultado do disco "Cantar Caipira", que havia acabado de gravar. Contou detalhes de quase todas as músicas e me fez prometer que após a apresentação dele em Americana, eu iria ao camarim, pois ele queria me presentear com uma das primeiras cópias do CD, que ele deveria receber naquele mesmo dia. Eu fui, muito mais pela honra de cumprimentá-lo pela apresentação do que pensando no CD, apesar da curiosidade em ouvir o novo trabalho. Seria um presente duplo. Ele agradeceu muito a matéria escrita por mim, que saiu publicada no LIBERAL chamando o público para o show. Pelas suas palavras era como se eu tivesse feito um favor a ele e não apenas exaltado a presença de uma das mais lendárias e importantes figuras da música caipira. Pena também se descupou pelo fato da distribuidora não ter entregado os cds prometidos e eu ter ficado sem minha cópia. Falei que tudo bem, e que teria o maior prazer em comprar quando o trabalho chegasse às lojas. Passaram duas semanas e o empresário dele, Jayme, me ligou um dia pela manhã, na redação aqui do LIBERAL, pedindo o endereço do jornal. Disse que a primeira remessa dos Cds havia finalmente chegado e que o próprio Pena Branca ao abrir a caixa tinha pedido para mandar uma cópia para o "menino que fez àquela linda matéria lá em Americana". O disco chegou no dia seguinte, com a dedicatória: "Para a amigo Luciano Assis, do amigo Pena Branca". O CD está aqui ao meu lado enquanto eu escrevo esse texto. E vai ser guardado para sempre, como lembrança dessa figura sagrada do nosso cancioneiro.
Palavras da cantora e compositora Courtney Love sobre a mega estrela do momento Lady Gaga: "(Ela)não é necessária. Não acho que seja necessária. Sou uma hippie velha". Faço dela minhas palavras e ainda comemoro que em uma época de gente politicamente correta, ainda exista uma Courtney Love prá fazer bagunça e deixar as coisas mais divertidas.
Após dois programas focados em retrospectivas, o Radiola retorna já de olho no melhor que a música nos dá em 2010. Logo de cara, o novo álbum do inglês Peter Gabriel (foto), que lança neste mês um disco só de covers, acompanhado por uma orquestra. Além dele, o Radiola ainda apresenta músicas de Carlos Santana, Sharon Jones and the Dap-Kings, Arnaldo Baptista, Beck, Chico Pinheiro e muito mais.
Clássico da semana: Carlos Santana - "Oye Como Vá" (1970)
Bloco 1 (Cantoras negras americanas) 1 - Sharon Jones and the Dap-Kings - "Tell Me" 2 - The BellRays - "Have a Little Faith in Me" 3 - Ike and Tine Turner - "A Fool in Love"
Bloco 2 (discos tristes) 1 - Arnaldo Baptista - "Navegar de Novo" 2 - Big Star - "For You" 3 - Beck - "Los Cause"
Lançamentos 1 1 - Chico Pinheiro - "Desde o Primeiro Dia" (Disco: Meia Noite, Meio Dia) 2 - Gilberto Gil - "Lamento Sertanejo" (Disco: BandaDois)
Lançamento 2 Peter Gabriel - "Philadelphia" (Versão de Neil Young) -Disco: Scratch my Back
BGs - Homenagem à Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
Link para download http://www.liberal.com.br/cadernos/podcast_ver.asp?c=02F0C950455
Beyonce é a estrela do momento. O furacão que passou pelo Brasil neste final de semana e ficou sob os flashs de toda a mídia. Há dois pontos sobre a americana que devem ser destacados, um positivo e um negativo. O positivo é que Beyonce descende de uma linhagem de cantoras negras/explosivas americanas que vem desde a década de 50, e que tem como matriarca Tina Turner. Tina, ao lado de seu marido, Ike Turner, eram uma maravilha, entre os anos de 1959 e 1966, mais ou menos. Depois vieram Diane Ross, Donna Summer e começou a cair em qualidade a partir de Whitney Houston, já nos anos 80. Beyonce traz no gene um pouco de todas essas citadas, com um adendo: pertence à era da imagem. Ninguém quer saber se sua música vele alguma coisa ( e ela até é uma cantora mediana!), importanta sua pose de diva/sexy/poderosa/gostosa/não tô nem aí prá você macho que quer me pegar. Sinais dos tempos, de um tempo onde uma imagem vale mais que mil palavras.
Nove. Esse é o número de estatuetas do Oscar a que concorre o filme "Avatar", de James Cameron. São apenas duas a menos que "Ben-Hur" e "Titanic", os maiores vencedores da história do prêmio. Tá certo que a Academia de Cinema de Hollywood é, antes de tudo, uma trena para se medir o impacto comercial de cada filme americano. Mas vamos e venhamos que "Avatar" é só um filme mediano de ficção cientifica. Uma obra história, mas por meios tortos, já que seu grande mérito está sendo popularizar o 3D. Mas fora isso, não tem nada de mais. O próprio Cameron tem filmes melhores no curriculo. Por isso, penso que em março, durante a cerimônia do Oscar, os verdadeiros fãs de cinema devem criar uma torcida para que "Avatar" recebe o menor número de estatuetas possíveis. Umas três ou quatro por categorias técnicas estão ótimas. Eu particularmente chorarei muito (de raiva) se ele levar (e parece que vai) os prêmios de melhor filme ou melhor diretor. Comparar as cenas de "Avatar" dirigidas por Cameron às cenas de "Bastardos Inglórios" de Tarantino é piada. E das mais sem graças. Deus proteja a sétima arte dos burocrátas do cinema americano.
Segunda e última parte do nosso especial de "Melhores da década", que iniciei na semana passada. Em razão de várias obras que julguei fundamental mostrar, acabei transformando essa edição de número 45 na mais longa já feita. Mais de 90 minutos de músicas. E olha que só após ouvir o programa pronto lembrei de grandes trabalhos que não mereciam estar de fora (LCD Soundsystem, por exemplo). Mas de uma maneira geral, achei a lista bem equilibrada e representativa. Espero que concordem (ou não, claro).
Bloco 1 Paul McCartney - "Jenny Ween" Johnny Cash - "We´ll Meet Again" Bob Dylan - "Thunder on the Mountain"
Uma das figuras mais pouco lembradas da música brasileira, ganha esse belo documentário dirigido por Lírio Ferreira ("Baile Perfumado"). Autor, junto à Luiz Gonzaga, de "Asa Branca", o hino Nacional do Sertão, Humberto Teixeira era um "dotô" com poesia afiada e popular, e um sujeito de personalidade profunda, como o triler do documentário "O Homem que Engarrafava Nuvens" já demonstra. Gosto muito da descrição que o pernambucano Otto faz dele, comparando Humberto com a polvorá e Gonzagão com um canhão.
Na última quinta-feira morreu o escritor J.D. Salinger. Tinha 91 anos, e uma lenda que o precedia. Não era para menos: Desde o início dos anos 60 ele não aparecia em público, não dava entrevistas, não lançava livros. Odiava qualquer contato com pessoas, principalmente jornalistas. Em tempos de hiper-exposição e de escritores multimilionário que seguem a cartilha do mercado, como J.K. Rowling (“Harry Potter”), Stephenie Meyer (“Crepúsculo”) e Dan Brown (“O Código Da Vinci”) isso era uma afronta. No meio literário corria boatos de que Salinger enlouquecera, que não comida alimentos sólidos, de que bebia urina, que não via a luz do sol. Fatos nunca provados e que provavelmente continuarão no território das lendas com sua morte. O mito cresceu ainda mais quando em 1980, um jovem perturbado chamado Mark Chapman disparou cinco tiros contra John Lennon, eleito o “Homem da década” por revistas americanas. Após o assassinato, Chapman sentou na calçada, abriu um exemplar do “O Apanhador no Campo de Centeio” (1951), de J.D. Salinger, e começou a lê-lo. Na polícia, perguntado sobre os motivos que o levaram ao criem, disse apenas que a obra falava por ele. Mas lendas à parte o mais importante é o legado – pequeno – de Salinger como escritor. A única questão duvidosa em relação a isso é se ele era melhor contista ou romancista. Mais que precisão com frases, o mestre inventou algo que hoje parece algo inerente à sociedade: a juventude. Se hoje, todo o mercado da moda, da música, da TV, do cinema e da própria literatura giram em torno do público adolescente consumidor, na década de 1940 o ser humano passava da infância à idade adulta. Num dia eles brincavam, no outro ia trabalhar. Evidente, que a vitória dos Estados Unidos e seu enriquecimento após a Segundo Guerra foi o principal fator para esse desabrochar juvenil, já que os jovens passaram poder curtir a idade entre os 13 e os 18 anos com namorados, carros do pai e rock. Mas isso só veio a partir do meio da década de 50. Mas antes disso, “O Apanhador no Campo e Centeio” já expunha todas as angustias dessa idade tão estranha. Quando lançado, o livro chegou a ser censurado. Pudera, nunca ninguém tinha usado linguagem tão vulgar, gírias tão diretas. Holden Caulfield era um jovem que adiava a escola, a família, os professores e largava tudo para cair no mundo. Isso 20 anos antes dos hippies! O titulo original do livro “The Catcher in the Rye” (algo como “o sentinela do vale”) era uma passagem do final do livro, quando Caulfield contava a sua irmã menor sobre um pesadelo que tivera. Nele, o garoto falava que ele ficava na beira de um abismo, evitando que crianças saltassem morro abaixo. Era a melhor metáfora para o salto de todos nós rumo à idade adulta. Para alguns estudiosos da obra de Salinger um dos motivos para sua saída definitiva de cena era que ele se incomodava de ser carimbado como um escritor “para jovens”, já que é fato que sua obra mais famosa perde o impacto quando lida após a adolescência. A verdade nunca ninguém vai saber. Ou talvez a melhor explicação tenha sido dada um século antes pelo poeta francês Arthur Rimbaud, que ao publicar o livro “Iluminações”, aos 19 anos, saiu de cena porque achou que jamais poderia superar àquilo que acabava de lançar. Na quinta-feira morreu o homem Salinger, porque o escritor já tinha esgotado suas possibilidades há quase meio século. E ele sabia disso.
Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.