7.14.2010

Ezequiel Neves e o fim de uma era


Morreu na última quarta-feira no Rio de Janeiro o produtor, jornalista e “homem de gravadora” Ezequiel Neves, aos 75 anos. Quem é mais antenado em música e mais velho, lembra-se com alegria dos textos cheios de paixão que ele assinava na década de 70 em jornais e revistas de São Paulo e Rio de Janeiro. Já a maioria, tem ele na lembrança como “o cara que descobriu” o Barão Vermelho e se tornou uma espécie de guia espiritual de Cazuza. Essa relação com é bem destrinchada no filme “Cazuza – O Tempo Não Para”, de Sandra Werneck e Walter Carvalho, onde ele é interpretado brilhantemente pelo ator Emílio de Mello.
Mas o que mais me veio à mente quando soube da morte desse desbravador da crítica pop nacional foi o fato dele ter sido acima de tudo um “homem de gravadora”. Uma espécie que hoje, infelizmente para o futuro da nossa música, não existe mais.
Então vamos lá: Neves descobria talentos, ouvia novos artistas, produzia e apostava naquilo que lhe despertava paixão. Foi assim que insistiu para a Som Livre fechar contrato com o Barão Vermelho.
Hoje, gente de gravadora odeia música, mas gosta de dinheiro. Artistas são cifrões ambulantes, mega empresas ambulantes que vão somando altas quantias por onde passam. Eles são bons? Quem se importa com isso? Eles pagam as contas.
Certa vez, ao elogiar um disco hoje clássicos do Rolling Stones, ele assinou a matéria como Zeca Jagger. Era antes de tudo uma declaração de amor apaixonada.
Há algumas semanas entrevistei o cantor Nasi, ex-cantor do Ira! para uma matéria aqui no LIBERAL. Ele está de gravadora nova, pequena e cujo um dos sócios é o grande Erasmo Carlos. Naquele bate papo pré-entrevista ele soltou uma informação que não foi inclusa no texto final, mas que achei fundamental dividir com vocês: “No dia em que fui fechar contrato e falar sobre o disco, passei horas conversando numa mesa sobre música, ideias que tinha para o álbum, etc. Foi a primeira vez em muitos e muitos anos que sentei numa mesa e ao invés de ficar discutindo dinheiro, porcentagem, lucros, dividendos, falei de música”. É o sinal de nossos tempos.

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Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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