6.29.2010

A dialética do caipira

É nítido a movimentação em torno do resgate de tradições oriundas do interior de São Paulo, que no passado sempre sofreu com preconceitos diversos.
Mais do que uma “aceitação” do caipira, vejo em todos esses eventos uma reavaliação da visão que até então se tinha do povo do interior, que foi formatada a partir da década de 1950/60 com o início do êxodo rural para os grandes centros. Foi nesta época que começaram a nascer no rádio e no cinema personagens como Mazzaroppi que personalizavam o homem do campo como um ser esperto dentro de uma natureza “sem maldade”. Essa visão chegou até os nossos dias com várias outras criações de humor, como Nelson da Capitinga.
O crescimento do sertanejo “moderno” como música comercialmente mais viável no mercado a partir dos anos 1990, se não fez bem aos nossos queridos ouvidos do ponto de vista musical, por outro lado tirou um pouco do estigma de caipira alienado da sociedade urbana.
Mas creio que o principal motivo para esse novo paradigma, e aí entra em campo o trabalho de gente da mais alta estirpe como Inezita Barroso, Renato Teixeira, Rolando Boldrin e alguns outros, é a recuperação do legado caipira para a chamada “grande arte” (aspas nesse caso são imprescindíveis, já que arte não se mede).
O caipira não é somente o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, mas gente que ditou tendências futuras dentro da cultura brasileira, como Tarsila do Amaral, Antonio Candido, e o próprio Monteiro Lobato.
Talvez o futuro desses importantes projetos sejam esse: Deixar claro que a música, a pintura, a literatura e todas as manifestações do não são necessariamente frutos de uma incapacidade de entender o mundo, mas uma visão desse mundo.

1 Comentários:

Blogger Linguistica e Literatura infantil disse...

Resgatar a cultura caípira é inserir-la no rol de culturas ditas importantes para o cenário nacional. Brasi, país de múltiplas culturas e suas preferencias, não pode escolher a cultura da elite como instrumento alavancador e torná-la inacessivel a quem dela nunca teve conhecimento. Precisamos valorizar o interior sob a condição de não o ser assim, termos uma riqueza que se esvai sorrateiramente. O campo é parte do todo. Precisamo-lo.

3 de julho de 2010 09:12  

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Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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