Chega neste final de semana às livrarias de todo o País a biografia “Nem Vem que Não Tem – O Charme e o Veneno de Wilson Simonal” (Editora Globo), do jornalista Ricardo Alexandre. Trata-se do primeiro livro a mergulhar no estranho, pouco explicável e até hoje ignorado caso do cantor brasileiro que mais viveu os extremos entre o sucesso e o descaso público. No ano passado, o documentário “Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei”, dos diretores Claudio Manoel (do Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal já tinha se proposto a fazer o mesmo no cinema, mas supera uma biografia em matéria de documento histórico para analisar um caso como o de Simonal. Filho de um Pedreiro e de uma empregada doméstica Wilson Simonal nasceu em 1939 e tinha de tudo para não ser nada na vida. Mas por um dessas ironias do destino era um talento talhado para o sucesso. Ótimo cantor cheio de ginga dava vida a canções como “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Balanço Zona Sul”, “Aos Pés da Santa Cruz” e “A Tonga da Milonga do Kabuletê”. Seus shows enchiam ginásios e as rádios tocavam seus discos a toda hora entre o final dos anos 60 e começo dos 70. O sucesso tornou o negro pobre Simonal numa estrela e diferente da maioria dos artistas com a sua cor de pele que baixavam a cabeça com os desmandos de empresários brancos espertalhões, ele era abusado e exibia seus carrões e namoradas loiras pelas festas da alta sociedade. Era um Roberto Carlos mais malandro, vivido, exibido e explosivo. Mas quis o destino que tudo isso fosse por terra e em 1971. Ao descobrir (ou desconfiar) que estava sendo roubado por um contador contratou dois agentes torturadores do Regime Militar para dar uma surra no suposto ladrão. Inocente e sem escolaridade para ponderar a leviandade de seu ato e até contando vantagem aos amigos, o fato caiu nos ouvidos de toda classe artística que não agüentava mais aqueles anos vividos sob as botas do exército. E o mundo de Simonal caiu. Aos poucos ele foi sendo deixado de lado por todos e as histórias de que era um delator de artistas para o militares grudou em seu nome, mesmo que nunca ninguém tenha provado nada de maneira objetiva. Alcoolismo, depressão e desesperadas tentativas de limpar sua barra e voltar ao que era antes se somou em seus anos finais, até sua morte em abril de 2000. Da sua maneira, ele foi mais uma vítima daqueles terríveis anos de ditadura militar.
Essa cena acima é a mais cara da história da TV. Esses míseros dois minutos custaram US$ 500 mil e foi ao ar no último domingo no episódio de abertura do seriado "CSI: Las Vegas", nos Estados Unidos. É legal, mas com tanto dinheiro em jogo bem que poderiam ser mais originais já que é um "Matrix" cuspido e escarrado (ou seria só uma homenagem?).
Essa notícia é só para quem tem mais de 30: Lembra do Esquadrão Classe A? Eles vão refilmar a série e essa foto ai em cima é do novo elenco. Como fala a molecada, o elenco antigo era mais Style!
Chegou nesta semana às bancas de todo o Brasil uma edição especial da revista Rolling Stone, que comemora três anos de lançamento de sua primeira edição nacional. Como faz em todos os meses de outubro, a publicação fez uma lista, desta vez focando as músicas mais importantes da história da música brasileira. Até gosto de listas, mas sempre fico com a sensação que elas chamam a atenção mais pelos esquecimento e do que pelas lembranças. E olha que a principio eu não teria muito o que reclamar, já que o primeiro lugar ficou com "Construção", de Chico Buarque. Acho uma obra prima suprema, genial em cada acorde ou susurro lírico. Aliás, todo o álbum "Construção" (1971) é fantástico. Gravado no momento mais soturno da ditadura militar, o álbum é raivoso como um urro punk e belissimamente poético ao mesmo tempo. Mas folheando as páginas da revista vem sempre aquela sensão de falta ou deslocamento histórico. Por que "Águas de Março", de Tom Jobim (2º lugar) é mais importante que "Carinhoso", de Pixinguinha (3º)? E por que o genial Luiz Gonzaga (3º lugar) é sempre lembrado, enquanto Tonico e Tinoco nunca aparece em lista algumas, se para a cultura paulista a dupla de São Manuel é tão representativa quando o Lua o é para o Nordeste? Será que "Mais que Nada", de Jorge Ben (5º lugar) é mais seminal para a linha evolutiva da MPB que "Alegria, Alegria", de Caeteno Veloso (10º) ou "Domingo no Parque", de Gilberto Gil (11º)? Mas talvez o intuito de toda lista seja esse mesmo.
Mais uma semana, mais um Radiola. Nesta semana vasculhei versões inusitadas feitas por gente como Helmet, Patti Smith e Luna. Além deles, separei um bloco que discos que eu adoro e que só foram entendidos muitos anos depois, como o “Psicoacustica”, do Ira!, o álbum de Ronnie Von, de 1968 e o radical “Revolver”, de Walter Franco. Nos blocos de lançamento, tem Beck, Brendan Brenson e o novo de John Forgety, o eterno líder do Credence Cleawater Revival.
Clássico da Semana Massive Attack – “Teardrop” (1998)
Bloco 1 (Versões inusitadas) Helmet – “Army of Me” (Bjork cover) Patti Smith – “Everybody Wants to Rules the World” (Tears for Fears cover) Luna – “Sweet Child ‘o’ Mine” (Gun´s´Roses Cover)
Bloco 2 (Discos esquecidos) Ira! – “Pegue Essa Arma” (Psicoacústica/ 1988) Ronnie Von – “Canto de Despedida” (1968) Walter Franco – “Partido Alto/ Animal Sentimental” (Revolver/1975)
Lançamentos 1 Brendan Brenson – “Fell Like Taking You Home” (disco: “My Old, Familar Friend”) John Forgety – “Back Home Again” (Disco: “The Blue Ridge Rangers Again”)
Lançamentos 2 Beck – “Famme Fatale (Disco: “Beck’s Record Club”)
Foi ao ar nesta madrugada o primeiro show transmitido via youtube, ao vivo, para todo o planeta. E a escolha não poderia ser mais grandiosa: a turnê "360º", do U2, no estádio Hollywood Bowl (o mesmo onde o Brasil conquistou o tetra campeonato, em 1994). Nos 30 anos de carreira, o U2 se notabilizou pelos shows viscerais (entre 1980 e 1989) ou pelos shows grandiosos em todos os aspectos (de 1991 em diante), com destaque para a histórica "Zoo TV", entre 1992/93. O bacana neste novo circo midíatico do U2 é a opção do quarteto irlandes em mesclar esse dois pólos, criando um mega palco que ao mesmo tempo que exausta o gigantismo do grupo permite uma intimidade com a platéia, que fica em volta do grupo durante todo o concerto.
Gênios que nascem na adversidade, apesar de cada vez mais incomuns, não são novidades na história da arte. Mas poucos superam Seu Agenor, popularmente conhecido como Cartola, um carioca que em vida fez de tudo para ganhar a vida (foi lavador de carro, engraxate, frentista, pedreiro, etc) e entre uma jornada e outra compunha alguns sambas doídos para grandes nomes do samba na década de 40, 50 e 60. Só em 1975 ele teve a chance de gravar um disco com seu nome, por uma gravadora independente, e morreu poucos anos depois, reconhecido, mas ainda morando na mesma favela onde passou a maior parte da vida ao lado da mulher, Dona Zica. Mais que uma história triste do pouco caso nacional com seus grandes nomes (Já imaginou o B.B. King morrendo esquecido e pobre?) o que suplanta a biografia do agora centenário Cartola é o completo descompasso entre para o que ele nasceue o que ele se tornou. O questionamento de todos que têm contato com sua obra é: como uma pessoa que mal aprendeu a ler conseguia produzir versos como “Esquece nosso amor/ vê se esquece/ Porque tudo no mundo acontece/ E acontece que já não sei mais amar/ Vai chorar vai sofrer/ E você não merece/ Mas isso acontece”. Ou ainda: “Preste atenção o mundo é um moinho/ Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos/ Vai reduzir as ilusões à pó/ Preste atenção querida/ De cada amor tu herdarás só o cinismo/ Quando notares estás à beira do abismo/ Abismo que cavaste com os teus pés”. A beleza dessas rimas nasce da simplicidade, do dizer muito em uma construção que beira o óbvio, mas que esconde camadas de idéias. E tudo parecia conspirar a seu favor. Mesmo quando suas limitações o impunham limites, como no verso “...eis que Jesus me premeia/ surge outro compositor/ jovem de grande valor” (segundo uma entrevista de Paulinho da Viola, Cartola queria dizer premia) constrói uma bela rima. Cartola é uma contradição da miséria brasileira.
Como a maioria já deve saber, Anne Frank foi uma das milhões de vítimas do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. O diferencial é que durante seus anos escapando do exército alemão ou confinada em campos de extermínio, ela se dedicou à escrita de um diário registrando os momentos de sofrimento pelo qual passava quando fugia da caça aos judeus realizada pelo exército germânico, que se tornou uma das obras mais vendidas do século 20, desde quando foi publicada em 1947, dois anos após sua morte. Caso ainda estivesse viva, Anne Frank completaria em 2009 a bela idade de 80 anos e uma série de comemorações estão sendo preparadas na Europa. Uma delas é a divulgação desse video de 20 segundos, de um casamento na rua Merwedeplein, em Amsterdã, em 1941, onde vários curiosos observam os noivos pelas janelas do prédios. Um deles é a menina Anne Frank, que olha a tudo sozinha em uma das janelas. Trata-se do único registro em video da escritora, que um ano depois iniciaria seu calvário de fuga da morte pela ideologia nazista, que a venceria em 1945, quando ela tinha apenas 15 anos de idade.
O ano de 2009 marcou os 20 anos da morte do poeta, letrista, agitador cultural e lutador de Karatê Paulo Leminski, que se foi de maneira prematura aos 44 anos de idade em 1989. De importância indiscutível para a modernização da poesia brasileira na segunda metade do século 20, unindo em seus poemas oriente, ocidente e cultura beat americana, as duas décadas da morte do poeta passaram quase batidas no meios de comunicação. Uma pena. O autor de versos como "Um homem com uma dor/ É muito mais elegante/ Caminha assim de lado/ Como se chegando atrasado/ Andasse mais adiante..." merecia mais da nossa atenção e da atenção dos cadernos culturais desse país. Abaixo separei alguns poemas, versos e estrofes de Leminski que eu gosto. Quem quiser pode postar outros nos comentários:
Poema
IV isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além
V O pauloleminski é um cachorro louco que deve ser morto a pau a pedra a fogo a pique senão é bem capaz o filhodaputa de fazer chover em nosso piquenique
Sem Budismo
Poema que é bom acaba zero a zero. Acaba com. Não como eu quero. Começa sem. Com, digamos, certo verso, veneno de letra, bolero. Ou menos. Tira daqui, bota dali, um lugar, não caminho. Prossegue de si. Seguro morreu de velho, e sozinho.
Nesta semana a Câmara dos Deputados aprovou o projeto do governo do vale-cultura. Trata-se do que muitos críticos já vêm chamando de “bolsa família da cultura”. Segundo o texto da lei, os trabalhadores de baixa renda receberão um cartão do governo no valor de R$ 50, que poderá ser gasto em livrarias, shows, cinemas, etc. O próximo passado agora é enviar o projeto ao Senado, que se aprová-lo sem restrições pode passar a valer já a partir de 2010. A classe artística se alegrou em peso com a ideia, levando em conta, claro, que isso vai servir de injeção de verba no meio artístico. E é evidente que vai: Calcula-se que os R$ 50 mensais dados ao trabalhador vai custar aos cofres públicos cerca de R$ 7,2 bilhões por ano. Levando em conta que segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), uma família brasileira gasta em média R$ 49 anuais em cultura, o vale-cultura (preparem-se para a ironia) pode nos empurrar em direção a países “ultras culturais” como Uruguai, Paraguai, Nigéria, Índia e Marrocos, todos na nossa frente em matéria de consumo de bens culturais. O calculo é de três anos atrás, mas pode ter certeza que quase nada mudou desde então. Não sou bobo de achar que aí não mora nenhuma ação que visa às próximas eleições por parte do governo, pois político pensa em eleição até quando vai comprar pão na padaria. Mas rechaço a acusação que todo crítico do vale-cultura usa para denegri-la. Cansei de ouvir nos últimos meses coisas do tipo: “Para quê dar dinheiro para as pessoas comprarem CDs de funk carioca e ir em show de pagode?”. Primeiro que a chamada “qualidade artística” é algo bem subjetiva e se o motoboy quiser usar seu vale cultura para ir em pagodinho o problema (e o dinheiro) lhe foi dado para isso. Estando a massa sem dinheiro para consumir cultura com (pouco) um dinheiro na mão, cabe ao próprio governo realizar um trabalho de base para que no futuro as pessoas diversifiquem suas idas ao baile funk com um concerto erudito, por exemplo. Mas se o gasto apropriado para o dinheiro do vale- cultura é uma questão de visão ou de preconceito artístico, tenho certeza que ele ainda é mais útil ou mesmo mais democrático que atuais leis de incentivo, como a própria Lei Rouanet, que funciona muito bem para imóveis como museus, teatros e prédios históricos, mas que deixa a dever em produtos voltados para o cinema e espetáculos em gerais. Eu mesmo tenho aqui comigo uns dois ou três livros belíssimos bancados com dinheiro público via Lei Rouanet, que custaram uma fortuna. A maiorias das edições impressas estão na casa de amigos do escritor ou na mesa de outros vários jornalistas que o ganharam, mas bem longe dos olhos da população, que com certeza usaria seu R$ 50 para comprar outra coisa, não necessariamente mais ruim.
Nesta sexta-feira a atriz Fernanda Montenegro completa 80 anos. Diva maior do teatro brasileiro ela é uma das poucas unanimidade brasileiras ainda viva em qualquer setor (arte, política, esporte), e exemplo de uma carreira construida apenas sobre o pilar da arte. Mas ao invés de ficar pensando em palavras sobre ela, o melhor é vê-la em ação.
Adoro esse videoclipe de Johnny Cash, um dos pioneiro do rock. Torna-se mais belo ainda quando soubemos que trata-se de uma despedida já que tanto ele quanto sua esposa, que aparece no video, morreram logo em seguida.
Com um pouco de atraso, publico aqui no blog o set list do programa Radiola, que entrou no ar na última sexta-feira. Uma caracteristica dessa edição é a grande quantidade de artistas que apareceram para o mundo na década de 90. Além de um bloco dedicado a nomes "esquecidos" dessa década, trago os lançamentos dos novos discos de The Lemonheads e Belle and Sebastian. Mas também há os ótimo Sparks, os nossos Mutantes e o lendário Velvet Underground. Vamos juntos nessa e não se esqueça: Sexta-feira tem mais!
Clássico da semana David Bowie - "Velvet Goldmine"
Bloco 1 Yo La Tengo - "Cast a Shadow" The Men Or Astro Men - "Television Men" Ocean Colour Scene - "Better Day"
Lançamentos 1 Adriana Calcanhoto - "O Homem Deu Nome a Todos os Animais" (Álbum: Partimpim 2) Bebel Gilberto - "Chica, Chica, Boom" (Álbum: All in One)
Lançamentos 2 The Lemonheads - "Hey, Thats no way So say goodbye" (Álbum: Varshions) Belle and Sebastian - "Seymour Stein" (Álbum: BBC Session)
O saudoso Michael Jackson foi um artista muito talentoso, que moldou boa parte do pop comercial que ouvimos hoje em dia, da diva (e companheira de geração)Madonna a bobagens como Wanessa Camargo ou qualquer outro vencedor desses programas musicais por aí (Idolos, Fama, etc). Sua enorme capacidade de cantar (muito bem), dançar(melhor ainda) e ainda compor com precisão para as paradas não tem parâmetros na história da música. Michael só não pode (e não deve) ser comparado aos grandes mestres. Está degraus abaixo de Ray Charles, James Brown ou Chuck Berry (só para ficar nos idolos negros da América). Sua morte prematura e triste com grande repercussão midíatica acabou criando distorções (para cima e para baixo) sobre seu verdadeiro legado. O auge artistico do Rei do Pop se deu entre 1979 a 1987, quando guiado pelas mãos do produtor e mestre Quincy Jones lançou maravilhas diversas. Mas a fome por dinheiro dos que o cercavam foi maior que tudo o mais, e Michael Jackson foi obscurecido por anos de anos mergulhado em megas mansões, excentricidades e autoreferencias. Sua música inédita lançada nesta segunda-feira para puxar o lançamento do documentário "This Is It" é uma prova disso. É quase uma demo, falta-lhe o apuro de bom gosto que Quincy Jones proporcionou nos anos 80. A voz carismática ainda está lá, mas sumiu-se os ganchos perfeitos que faziam até quem não era fã bater o pé contra o chão. A música nem é inédita. É uma sobra de estúdio que já foi gravada (isso ninguém quase falou) em 1983 por um cantor porto riquenho. Uma canção rechaçada por Jackson em vida. Mais uma sobre ela: É um plágio. Trata-se de uma parceria de Michael com Paul Anka (o compositor de "My Way"), que a engavetou (chamava-se "I Never Heard") depois da gravação do tal cantor que eu não lembro o nome. Anka já disse que vai processar os empresários de Jackson, e mesmo depois de morto a ganância dos que cuidam espólio do astro continua atrapalhando uma análise extata sobre a real importância desse mestre pop.
Toda vez que leio ou escuto alguma discussão a respeito da morte dos livros, fico imaginando que vivo em qualquer outro mundo, paralelo ao dos apocalípticos que pregam a morte de todo e qualquer meio. Mais: Sempre me pego rindo sozinho quando vejo em alguma livraria um livro publicado falando sobre a questão da morte do formato. Penso comigo mesmo: Se vai morrer porque esse cara perde tempo escrevendo um livro para me dizer isso? Mas tiração de sarro à parte, o que leio por ai em listas dos mais vendidos é realmente o contrário. Não sou tão velho, mas não consigo me lembrar de tantos jovens fazendo filas em portas de livrarias para comprar os últimos lançamentos de Harry Potter ou da série Crepúsculo. Tudo bem, sei que você pensou ai: “Mas isso é fruto do apelo comercial do cinema e uma moda passageira que logo vai acabar!”. Mas é fato que pelo menos esses escritores (alguns muito bons, como no caso da J.K. Rowling) despertam novas gerações para o hábito da leitura, algo que muitos grandes escritores clássicos nunca conseguiram já que sempre foram empurrados goela abaixo dos alunos em aulas no colégio. E todo mundo sabe, jovem odeia ser forçado a fazer algo. Sei de exemplos de garotos de 15 anos que foram aprender inglês para lerem os livros da série Harry Potter no original, pois não agüentavam esperar pela tradução. Essa é a geração do imediatismo, eles não esperam por nada. Dois outros pontos que também merecem ser destacados é que já virou clichê acusar um veículo de matar o outro. Quando surgiu o cinema, no começo do século 20, falaram que ele iria matar o teatro. Depois, nos anos de 1980, disseram que o videocassete mataria o cinema. Nas artes as viúvas choram antes do atestado de óbito do defunto. Hoje, a internet se tornou a maior assassina do mundo. E maior suspeita de ter matado todos os outros veículos, do Ibope da rede Globo ao seu vizinho pagodeiro que reclama que não consegue mais lançar CD porque as gravadoras estão falindo. Falácia. Nem sempre o meio é a mensagem. E mesmo ainda sendo o mais instigante, belo e charmoso modo de ler, a leitura e o livro não são gêmeos siameses. Uma improvável morte do primeiro (caso isso venha a ocorrer) apenas adaptará a leitura, mas não a extinguirá. A diminuirá? Não sei se dá para responder agora, como fazem os especialistas de tudo quanto é coisa que aparecem a cada dia, profetizando o futuro. A única coisa que sei é que há uma forte tendência pelo fim do apego físico às coisas. Olho meus LPs cheios de encartes, informações, capas duplas e nove horas e sei que àquilo é inconcessível para a “geração I-pod”, que troca qualquer perfeição audiófila pela praticidade dos MP3. Ou não sujam as mãos de tintas de jornal para ler essa coluna, esperando achá-lo por aí na Internet. Mas aposto que daqui há 50 anos sempre haverá um ou outro que vai se deitar no sofá de domingo cansando os braços segurando um calhamaço de papel, com duas capas e letras pretas sobre um fundo branco.
Uma pesquisa do Sindicato das Empresas Distribuidoras de Produtos Cinematográficos do Rio de Janeiro indicou que há algo de podre (ou simplesmente errado) no reino do cinema nacional. No ano passado foram lançados no mercado exatos 90 filmes brasileiros, um recorde na história do país, que deve ser mantido neste ano de 2009. Os números se tornam mais impressionantes se levarmos em conta que no momento 576 novas obras estão em fase de produção. Uma maravilha, né? Agora eu pergunto: Quantos filmes brasileiros você foi ver no cinema entre janeiro e a noite de ontem? Se a resposta for vários, parabéns, você faz parte de uma minoria, segundo a mesma pesquisa, que indica que tivemos a maior queda de bilheteria dos últimos sete anos. Em 2002, por exemplo, 7,8 milhões de espectadores viram um filme nacional, número que só foi crescendo até o ano passado, quando 10,3 milhões entraram nos cinemas para ver alguma produção “made in brazil”. Em 2008, foram míseros 7 milhões, graças ao mega sucesso de "Se Eu Fosse Você 2", de Daniel Filho. Várias explicações podem ser dadas para o fato. Os mais otimistas podem se apegar ao fato de que o público de cinema vem caindo de uma forma geral. Em 2004, foram 117 milhões de espectadores, caindo para 93 milhões em 2005 e para 90 milhões em 2006. No ano passado foram 89 milhões, que se transformaram em 82 nos últimos 12 meses. Mas e daí? O que você tem a ver com isso? Ou melhor, o que isso muda na sua vida? O fato é que 2008 e 2009 teve um gigantesco investimento do Ministério da Cultura em novas produções, o que é provado no aumento de novas produções em comparação aos últimos anos. Isso significa que tem muito filme sendo feito e não sendo visto, uma espécie de investimento a fundo perdido. Diretor de cinema no Brasil é o único único trabalhador que recebem antes de trabalhar. Muitos longa metragens são lançados sem muita preocupação se alguém vai assistir, já que todos os envolvidos no processo (atores, diretores, etc) já foram remunerados através de leis de incentivo com o filme sendo um sucesso, um fracasso ou muitas vezes mal sendo colocado nos cinemas. Realmente há algo de errado ou, pelo menos, muito estranho nisso tudo.
Se muitos videos musicais atualmente apenas reúnem um punhado de sucessos de uma banda/artista em performances ao vivo de grandes sucessos, o relançamento de "Stop Make Sense" (1984) dos Talking Heads nos presenteia com um dos melhores documentários/conceitos já feitos. Dirigo por Jonathan Demme, que depois gravaria o ótimo "O Silêncio dos Inocentes" (1989) o filme é um retrato em todos os ângulos de uma das bandas mais inteligentes que já existiram, casando com perfeição música/performance/conceito/intelectualismo. Essa é a primeira música do show, apenas com David Byrne no palco, preparando a entrada no palco do restante do grupo.
O filme mais caro produzido no Brasil chega aos cinemas em 2010, focando a vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nesta quinta-feira a família Barreto, produtora do longa metragem, divulgou o trailer da obra. Pessoalmente acho que um filme feito ainda no calor do mandato de um político acaba por prejudicá-lo, pois impossibilita o distanciamento histórico necessário em qualquer analise do personagem. Mas é cedo ainda para emitir qualquer comentário mais aprofundado. Vamos esperar...
Nunca comprei nenhum DVD ou CD do Calypso e provavelmente nunca terei algum deles. Mas devo confessar que a voz de taquara rachada da Joelma me diverte e que apesar de não ter nenhum cuidado com os timbres de sua guitarra (que parecem saídos de um instrumento de brinquedo), acho o Chimbinha um músico até elogiável. Pelo menos é melhor que toda essa molecada do rock brasileiro nascidos nos últimos anos. Mas acho maravilhoso como o casal brega paraense conseguiu se tornar um fenômeno nas regiões norte e nordeste sem apoio de grandes redes de TVs e rádios. Quando foram descobertos pelo Faustões e Gugus da vida, Joelma e Chimbinha já tinham vendidos milhares de cópias de seus trabalhos independentes, e desfrutavam de milhões de pessoas cantando suas músicas sem a necessidade de jabás, aparições em programas dominicais, etc. Evidente que isso não faz deles um fenômeno artístico de grande qualidade, mas me impressiona como no Brasil o gosto musical é muito mais pautado por questões sociais do que musicais. Não consigo pensar em nenhum novo nome da chamada “nova MPB” que tenha qualidades tão superiores quanto os de Joelma e Chimbinha, no entanto são os bregas paraenses de músicas românticas que são ridicularizados, achincalhados e ouvidos apenas pelas camadas que não separam o que é “chique” do que é “popular”. E sempre foi assim. Em 1973, quando Caetano Veloso convidou Odair José para fazer uma participação em seu show no especial Phono 73, o cantor das empregadas foi recebido com vaias. Caetano veio a público defendê-lo, mas também foi tratado com desdém pelo ato. O apartheid cultural entre os que acham “cultos” por gostar de MPB ou outro gênero não popular chega ao cúmulo de provocar distorções históricas, como o que aconteceu neste ano, quando o Calypso foi citado por Chris Anderson, o editor da revista americana Wired. Trata-se da principal publicação sobre tendências tecnológicas e culturais no mundo, a chamada “bíblia dos modernos”, onde Bill Gates, Radiohead, Quentin Tarantino apareceram ainda quando eram poucos reconhecidos pela grande massa de público. Em uma longa matéria sobre como artistas pelo mundo criavam novas possibilidades de divulgação de seu trabalho em tempos de pirataria e crise fonográfica, Anderson contou como Joelma e Chimbinha se tornaram um dos cinco maiores vendedores de CDs e DVDs do Brasil através de “rádios de postes” da região norte, que tocavam seus trabalhos em praças públicas. Eles também passaram a vender cópias originais dos discos em camelôs. A matéria gerou até um estudo de caso da Fundação Getulio Vargas, que é citada na matéria sem muitos detalhes. Não é estranho nunca nenhuma mídia brasileira ter citado esse caso? E por que quando Ivete Sangalo ou o Seu Jorge são citados por um jornal estrangeiro o fato é plenamente ventilado por aqui? Seria caso de uma assessoria de imprensa e divulgação eficientes ou puramente preconceito? Não sei, mas lembro que em 2002 quando o CD “The Life Aquatic”, de Seu Jorge, foi lançado contendo versões do carioca para clássicos do inglês David Bowie ele foi tratado aqui como um novo fenômeno da música brasileira na Europa, já que o próprio Bowie lhe havia dado permissão para o trabalho. Apenas poucas vozes se levantaram para observar o óbvio: Musicalmente o álbum era uma piada, só que levada a sério, diferente da dupla do Chimbinha.
Há 40 anos estreava na TV inglesa o programa de humor Monty Python. Pode-se afirmar que a trupe não só representava de maneira precisa o humor ácido que viraria a marca dos britânicos para o resto do mundo, como dariam ali o ponta pé inicial a um "humor moderno", que influênciaria gente do mundo inteiro. Sem o Monty Python, por exemplo, não teriamos aqui no Brasil a "TV Pirata", "Casseta e Planeta", "CQC" e tantos outros.
Mais uma semana, mais um Radiola. E esta semana sorteio o CD "Humbug", da banda inglesa Artic Monkeys para quem me mandar um e-mail, na mais fácil promoção dos últimos tempos. Já a edição traz o ecletismo de sempre, tocando no mesmo programa Gal Costa, Chet Baker, AC/DC e os novos trabalhos da atriz Scarlett Johansson com o músico multiinstrumentista Pete Yorn (foto) e dos americanos do Pearl Jam.
Clássico da semana
Gal Costa - "Se Você Pensa" (1969)
Bloco 1 (Vozes influentes) Chet Baker - "My Funny Valentine" Gil Scott Heron - "The Revolution Will Not Be Televised" Sharon Jones and the Dap-Kings - "Be Easy"
Bloco 2 (Viagem à Oceania) The Easybeats - "Can't Take my Eyes off You" The Datsuns - "Lady" AC/DC - "War Machine"
Lançamentos Scarlett Johanssen and Pete Yorn - "Relator" (álbum Break up) Regina Spektor - "One More Time with Feeling" (álbum Far)
Lançamento Pearl Jam - Gonna See my Friend (álbum Backspacer)
Dizem que o VMB (Video Music Brasil) da MTV, que aconteceu na noite de ontem é a maior premiação da música brasileira. De uma forma geral não gosto de prêmios ou competições entre artistas, e gosto muito menos ainda daqueles que premiam bandas como o Fresno como a "Melhor do Ano" ou o Cine, como revelação. Mas assistindo pela TV me diverti em alguns momentos: Marcelo Adnet é realmente um grande talento de sua geração, Bento Ribeiro e Dani Calabreza fazem um bom par com comentários sarcaticos e, acima de todos, ri de doer a barriga com o Massacration, acompanhados do Falcão (o brega, não o do Rappa). Para quem interessar, coloquei abaixo os vencedores da noite.
Artista do ano: Fresno Videoclipe do ano: Skank – Sutilmente Hit do ano: NX Zero – Cartas para Você Aposta MTV: Vivendo do Ócio Melhor show: Os Paralamas do Sucesso Artista internacional: Britney Spears Blog do ano: Jovem Nerd Revelação: Cine Web Hit do ano: Seminovos – Escolha já seu nerd Twitter do ano: Marcos Mion Game do ano: The Sims 3 Filme ou documentário musical: Titãs – A Vida Até Parece uma Festa Melhor vocalista: Lucas (Fresno) Melhor guitarrista: Martin (Pitty) Melhor baixista: Tavares (Fresno) Melhor baterista: Duda (Pitty) Rock: Forfun Rock alternativo: Pública Hardcore: Dead Fish Pop: Fresno MPB: Fernanda Takai Samba: Zeca Pagodinho Reggae: Chimarruts Rap: MV Bill Instrumental: Pata de Elefante Música Eletrônica: N.A.S.A.
Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.