Segundo os médicos rir ou simplesmente sorrir relaxa os músculos da face e por conseqüência previne o envelhecimento precoce e até doenças. Ou seja, quem ri vive mais e melhor, o que não é segredo para ninguém. Mas para o escritor e pesquisador Elias Thomé Saliba, rir também é uma arma poderosa contra ditaduras, governos corruptos e a aparente normalidade social. Elias é autor do livro “Raízes do Riso” (Cia. das Letras), que reconta a história do humor brasileiro desde o século 18 até a década de 1940 através de reproduções de tiras, quadrinhos, charges e textos publicados em jornais de época. Já foi dito que todo grande gênio tinha bom humor, mesmo que escondido. Nelson Rodrigues foi um exemplo. Por baixo de toda sordidez que ele gostava de relevar na natureza humana no fundo suas crônicas e mesmo suas peças guardam um riso irônico contra tudo e todos. Uma vez entrevistando o escritor Luiz Fernando Veríssimo, que eu adoro, ele resumiu com precisão do papel do humorista diante dos governos. Meu questionamento foi em razão dele por tantos anos ter estado na oposição dos governos e, na época, estar assistindo a chega ao governo de uma pessoa que ele já apoiara. Ele afirmou que sua postura não mudaria, pois "o poder é sempre criticável, só por ser poder. E a única obrigação do humor é ser humor". Achei perfeito. Em uma outra entrevista dada a mim pelo cartunista Angeli, outra pessoa que eu acompanho e admiro, perguntei porque o humor brasileiro vai ao poucos se relacionando ao poder até ser absorvido por ele. Fiz a pergunta pensando na trupe de humoristas do Casseta e Planeta, que em seu início tinha uma violenta visão contra a política brasileira e hoje tem uma relação mais afável com políticos e demais celebridades do governo e mesmo da TV. Angeli disse que o principal erro de algumas pessoas é passar a gostar do poder e de tudo mais que ele oferece. “Eu não faço humor político porque gosto de política. Eu faço humor político porque odeio a todos os políticos indistintamente”, atacou. Também gostei da resposta, que deixava vazar sua veia punk. O Brasil é um País alegre por natureza. Sempre foi e isso é uma vantagem. Por isso, o humor esteja tão enraizado em nosso dia a dia. Por pior que sejam nossas tragédias, sempre pipoca uma piada sobre elas tão logo elas aconteçam. O livro de Elias Thomé Saliba não explica de onde vem essa alegria toda, mas faz um belo retrato da história nacional e da relação do povo com seus humoristas do passado, que de certa forma se estende até os dias de hoje. “O humor ocupa um espaço enorme em nossa vida social, ao mesmo tempo que é visto como coisa menor e efêmera”, explica o autor.
Roman Polanski é um dos maiores nomes da história do cinema e seria triste vê-lo passar o resto de seus dias atrás das grades como estuprador (todos sabemos como estupradores são tratados, seja aqui ou em qualquer cadeia do mundo). De nacionalidade francesa, o cineasta tirou o cinema americana do marasmo em que se encontrava em meados da década de 60 ao lado de outros nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e outros. Sua vida foi marcada por tragédias e grandes filmes. Filho de judeus viu seu mundo cair quando Hitler invadiu a Polônia, onde ele morava com o pai e a mãe. Toda a família foi enviada a Auschwitz, de onde a mãe nunca saiu. Quando terminou a Guerra foi estudar e acabou se apaixonando por cinema. Fez filmes, muitos elogiados e citados como clássicos da sétima arte, e ganhou fama com “O Bebê de Rosemary”. Depois, em 1968, viu sua esposa Sharon Tate ser assassinada por um grupo de fanáticos comandados por Charles Manson. Grávida, os assassinos a mataram e escreveram palavras de ódio nas paredes da mansão do casal usando o feto retirado da barriga da vítima a golpes de faca. Até hoje o assassinato é lembrado nos Estados Unidos. Dez anos depois, Polanski já tinha no currículo uma lista de longa metragens maravilhosos como “O Inquilino” e “Lua de Fel”. Recentemente filmou “O Pianista”, um grande filme onde lembrava momentos de sua infância num devastada Varzóvia. Seu erro foi se aproveitar de uma menininha de 13 anos cuja mãe sonhava transformar em atriz e deixou passar alguns dias na cada de Polanski no final dos anos 70. Com quarenta e poucos anos, o diretor fez sexo com a jovem, quase que com o consentimento da mãe. A menina não virou atriz, e a mãe se vingou processando-o por estupro. Nunca mais voltou aos Estados Unidos, até que foi preso no último final de semana em um festival de cinema na Suíça. Agora os Estados Unidos quer que o governo suíço o entregue, o que significa que Polanski pode passar o resto dos anos que lhe faltam atrás das grades do sistema prisional americano. Não tenho tanta proximidade com detalhes do caso, mas nomes de reputações intocáveis no mundo da arte como Woody Allen, Ettore Scola, Martin Scorsese e Giuseppe Tornatore já vieram a público manifestar apoio a Polanski. Eu só lamento que uma carreira tão gloriosa possa terminar assim.
Após minhas férias, o Radiola voltou com o repertório mais extenso de sua história. Mais de uma hora de programa quase todo dedicado a lançamentos dos mais diversos. Tem Wilco, Arnaldo Antunes, Cidadão Instigado (uma banda que eu adoro) e o novo e ótimo projeto da obscura banda Sparklehorses em parceria com o produtor de soul Danger Mouse e o cineasta David Lynch. Coisa fina. Bom, sem mais papo, o set list do programa está aqui abaixo e o link no final do post.
Clássico da semana Alice Copper - Blue Turk
Bloco 1 (documentários) Wilson Simonal - Não Vem que Não Tem Paulo Vanzolini - Prá Tirar Você do Sangue Titãs - Disneylandia
Bloco 2 (relançamentos) George Harrison - Art of Dying Blur - Coffe and TV Rolling Stones - Sister Morphine
Voltando ao assunto "Anticristo", falado aqui pouco abaixo, queria destacar que fora opiniões pessoais sobre a obra num todo, o longa metragem tem uma das aberturas mais belas do cinema nos últimos anos. Cinco minutos emocionantes. Essa cena é a da versão americana, onde closes de penetração são cortados. Nesta cena há um desses cortes, mas que não chega a prejudicar o andamento da cena.
Essa é para os quase trintões morrerem de saudade. Lembra da novela infantil "Carrossel", que no começo dos anos 90 rivalizou com a rede Globo? Um programa mexicano juntou todos os alunos e as crianças 15 anos após o fim da atração, incluindo a professorinha Helena, que continua uma simpatia apesar dos quilinhos a mais.
Créditos- O video eu vi e roubei do site www.oesquema.com.br.
Uma vez um conhecido se gabou de ter visto o que ele chamou de "Credence" ao vivo em 2001, num rodeio qualquer por aí. De cara respondi que ele não havia visto o lendário Creedence Clearwater Revival, e sim uma cópia barata com dois membros pouco atuantes da época áurea(1968-1072) em que o grupo era um dos maiores dos Estados Unidos. Tentei explicar que o Credence Clearwater Revisited que ele tinha gostado não tinha no palco John Forgety, o compositor, cantor, guitarrista, produtor e manda chuva do grupo. Ele ainda tentou discutir, e prá encerrar fiz a seguinte comparação: "Você iria assistir a um show da Legião Urbana sem o Renato Russo? Pois é mais ou menos o que você viu". Com essa compração venci o mini debate entre amigos. E não é que Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá resolveram se apresentar no último final de semana, em Brasília, usando o nome Legião Urbana? Renato Russo, que sempre lutou pela ombridade de sua banda, a ponto de em vida não deixar nem mesmo coletâneas da banda serem lançadas estaria se virando no túmulo se não tivesse sido cremado. Deixem os mortos em paz, minha gente!
Já ouvi várias vezes a seguinte expressão: “O filme tal é só para divertir”. Sempre penso comigo mesmo: Mas existe algum filme feito para irritar? Tudo bem, temos as obras do cinema de Jean Luc Godard e Andy Warhol, que fez a cabeça de toda uma geração na década de 60 e 70, e que consistiam, muitas vezes, em testar a paciência de quem gostava de cinema hollywoodiano. Mas essas obras tinham uma explicação muitos mais simples. Antes de se concentrarem no enredo, alguns nomes do cinema experimental queriam mesmo era testar os limites da linguagem, em detrimento da linearidade. O mesmo pode ser dito da música de John Cage ou do movimento No Wave do final da década de 70, que deu ao mundo combos musicais bem interessantes com o Suicide ou mesmo o Sonic Youth. Se seguirmos esse pensamento, talvez “AntiCristo”, do diretor Lars Von Trier seja a mais destacada obra cinematográfica com uma única finalidade: Provocar o espectador. Nem o curta metragem “Um Cão Andaluz”, de Luis Banuel é tão incomodo quanto o longa metragem do cineasta dinamarquês que foi vaiado com vontade pelo público do Festival de Cinema de Cannes, no primeiro semestre e que chegou aos cinemas brasileiros há algumas semanas. Como um filme de terror psicológico se sucede pela tela imagens de sexo explicito, sangue, amputação de órgãos genitais e uma raposa que fala (!). A atriz Charlotte Gainsbourg até ganhou o prêmio de melhor atriz pelo papel da mãe atormentada pela morte do filho, mas até agora ninguém entendeu o que Von Trier pretendia com o filme. Ele mesmo anunciou ao vento que seu filme não está nem aí para o público, e que se trata de uma reflexão pessoal sobre dor, já que ele passou vários meses em um processo de depressão que culminou com o roteiro de “AntiCristo”. A declaração somada ao filme, que assisti numa sessão meio vazia num cineclube paulistano, me fez lembrar Frank Zappa, que certa vez disse declarou o seguinte sobre o movimento punk: “Gosto quando eles dizem: tocamos rápido, mau e alto. E daí? A parte do E daí, eu gosto”. É a mesma opinião minha sobre “AntiCristo”.
Antes de mais nada queria pedir desculpas pelo sumiço de três semanas aqui do Blog. A semana anterior a minha entrada em férias foi tão corrida que acabei não explicando aos leitores do Entrelinhas da chegada do meu período de descanso e pernas pro ar. Também queria agradecer aos e-mails e comentários na minha ausência, todos muito simpáticos e carinhosos. Bom, promete me redimir com novidades, que vou postando aqui entre hoje e amanhã. Sabe como é: Voltar assim após vários dias, pode dar fadiga...
Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.