De 1998 para cá, Rita Lee virou uma especialista em lançar discos ao vivo. Foram cinco trabalhos contra dois de inéditas. O pior é que todos eles possuem repertório bem parecido para desespero dos fãs mais completistas. Agora, ela lança mais um: "Rita Lee - Multishow Ao Vivo". Mas chatice minha à parte, dei boas risadas com essa "O Bode e a Cabra", versão bem humorada dela para "I Wanna Hold Your Hand", dos Beatles. Na verdade há tempos Titia Rita estava tentando gravá-la, mas Yoko Ono, que detém o espólio das músicas de John Lennon sempre barrava. Agora a japa liberou.
Vocês lembram da série "Família Dinossauro", sucesso no Brasil durante a década de 90? O último episódio da série nunca foi ao ar no Brasil e é provavelmente o mais triste último capitulo de uma série de TV em todos os tempos. E em tempos de "nova guerra nuclear", continua pertinente a todos nós.
O parágrafo abaixo é copiado de uma matéria publicada na edição deste mês da revista Rolling Stone sobre a boy band Jonas Brothers, que se apresentou no último domingo no estádio do Morumbi, em São Paulo, com suas fãs histéricas berrando o nome de seus ídolos enquanto eles nem ouviam o que estavam tocando (se por acaso tocaram mesmo, já que o playback impera em grupos do estilo). “A neuropsiquiatra doutora Louann Brizendine, autora do best-seller ‘Como As Mulheres Pensam’, diz que a liberação da dopamina do cérebro de uma garota que grita ao ver seus ídolos é como uma ‘injeção de heroína’. Estar ao lado de outras garotas gritando, diz ela, só torna o efeito ainda mais selvagem. ‘Há algo na biologia que chamamos de sincronia’, diz Brizendine. ‘Uma garota afeta a outra em um efeito dominó que se amplifica até o nível da histeria. Seus cérebros estão sendo inundados de dopamina e oxitocina, que é um hormônio ligado ao amor e à afinidade. A grande quantidade de estrogênio das adolescentes catapulta os níveis de dopamina e oxitocina no cérebro, criando um surto de êxtase nelas mesmas e nas outras’”. Poxa, isso parece fazer muito sentido, até porque segundo a mesma matéria esses níveis de dopamina vão diminuindo conforme a adolescência vai dizendo adeus e a idade adulta se aproxima. Por isso, as boys band são um produto de consumo rápido, pois toda menina cresce e a geração seguinte precisa de um novo grupinho em substituição. Hoje são os Jonas Brothers, antes foram o Backstreet Boys, que vieram após o New Kids On the Block que por sua vez, foram a resposta das meninas do começo dos anos 90 para as que curtiam os Menudos cinco anos antes. É trintona, não disfarça não, porque você também teve sua boy band, como sua mãe pode ter barrado com a Jovem Guarda. Então, não reclama se sua filha hoje a está forçando a ir até São Paulo se espremer em meio às histéricas adolescentes que amam o Jonas Brothers. Mas não seria justo renegar essa histeria apenas às mulheres e colocar a culpa de tudo em um hormônio qualquer. Há pelos menos 50 anos a arte estabilizou-se em um estado coletivo, que chega até aos shows-missas atuais, passando pelas atividades esportivas. Em 1979 o Pink Floyd comparou os grandes concertos de rock com comícios nazista em seu épico “The Wall”. Na teoria do líder da banda, Roger Waters, o estado catártico desses eventos fazem do público massa de manobra nas mãos de corporações que dominam a música pop. Faz sentido? Sim e não, afinal não dá para culpar gente cheia de dopamina ou testosterona (no caso dos homens) de extravasar isso em seus momentos de lazer. Mas é bom ficar atento, pois nem a mais inocente boys band é tão inocente assim.
Com apenas 61 anos o Brasil perde Zé Rodrix, que muito mais que o compositor de "Casa no Campo", que ficou clássica na voz de Elis Regina, esteve na linha de frente da música brasileira entre os anos de 70 e 80. Integrante do trio Sá, Rodrix e Guarabira, ele também também fundou a banda Som Imaginário, Joelho de Corpo e tocou no clássico e obrigatório disco de estreia do Secos e Molhados. Eu não conheço, mas alguns amigos ainda destacam que sua obra literária também pe coisa fina, e merece ser conhecida. Essa sexta-feira começa mais triste...
O canadense Leonard Cohen lançou o que é provavelmente um dos melhores discos do ano, duplo e monumental "Live in London". Poeta elogiado pela crítica, Cohen se lançou no mundo da música aos 32 anos em 1967 e de lá para cá sempre aparece de maneira bissexta com trabalhos novos. Fazia 15 anos que ele não lançava nada novo e esse ao vivo só veio à tona por causa de problemas financeiros do mestre. Santa crise!
Ainda dá tempo de impedir que essa menina seja poupada de no futuro aparecer em nosso video protagonizando algum programa sensacionalista falando do fim de um de seus vários casamentos ou lembrando do tempo em que era uma estrela em ascensão que depois foi esquecida assim que a adolescencia chegou. Pensa que maravilha essa gracinha longe das garras do mundo do entretenimento que a capturou já aos três anos de idade e a escraviza tentando tirar proveito de momentos contrangedores como esse:
Na semana passada escrevi que não botava fé no fenômeno da internet Susan Boyle, pois apostava que em pouco tempo as garras da indústria do entretenimento a perverteria. No texto original, que saiu na minha coluna de domingo aqui do LIBERAL, acabei cortando por falta de espaço uma previsão: Seu primeiro CD vai sair às pressas, assim que acabar o programa que ela participa e será gravado a toque de caixa, com uma banda formada por músicos de estúdios escolhidos pelos produtores e um teclado horrendo permeando tudo para encobrir a falta de ensaios. Vai fazer um razoável sucesso e em pouco tempo nunca mais vamos voltar a ouvir falar dela. Choveu e-mail aqui, tanto com elogios quanto com críticas. As críticas foram as mais exaltadas, afirmando que eu não estava notando um grande talento, etc e tal. Pois meu pessimismo nunca que deixa na mão. Essa semana o semanário inglês New Music Expressa soltou uma matéria afirmando que todos os jurados do programa já sabiam da ótima voz de Boyle, diferente do que tentaram demonstrar na hora da atração. E mais: Segundo vários outros jornais (que não foram ecoados aqui) o mesmo empresário que dirigiu a carreira das Spice Girls trabalha com Boyle há mais de dois meses, ou seja, nada ali foi ao acaso.
Nunca entendi porque os estrangeiros fazem uma ligação tão forte entre o Brasil e o corpo feminino. Tudo bem, o Carnaval sempre ajudou muito a divulgar isso e nossas belas praias são sinônimos de mulheres com biquinis. Mas vários outras cidades pelo mundo (Honolulu,Ibiza, Cannes) também possuem pelas praias e mulheres até mais nuas do que nós. Mas aqui existe não só a questão do corpo como uma obsessão sexual, tanto que nos Estados Unidos algumas depilações intimas femininas são chamadas de "Brazilian Wax". E na Inglaterra a revista "Vice" fez uma edição especial sobre o Brasil e olhe a capa:
Uma das maiores artistas de sua geração e uma das mais criativas em atividade neste século 21 é a inglesa Polly J. Harvey, que acaba de lançar o sombrio e experimental "A Woman a Man Walked By", ao lado de seu fiél guitarrista e amigo, John Parish. Esse clipe é da música "Black Hearted Love", que é belissimo e dá uma versão visual à primeira faixa do álbum.
A primeira vez que ouvi falar em Virada Cultural foi na França, onde nasceu esse conceito de investimento cultural gratuito. Lá, eles chamam de Nuit Blanch, e envolve apenas atrações do País, que se apresentam em teatros e ruas de Paris. Quando foi anunciado aqui, fiquei feliz, mas como todo brasileiro que se preza fiquei com o pé atrás, esperando que algo poderia sair errado (porque os organizadores poderiam não entender o conceito de diversidade de um evento como esse ou a própria população causar algum tumultuo). Mas felizmente meu pessimismo era infundado e o evento com um sucesso, ficando melhor a cada ano. Em 2006 ainda teve um episódio ruim em um palco montado na Praça na Sé, em São Paulo, voltado ao rap, que infelizmente prejudicou a escalação de outros nomes do estilo nos eventos seguintes, mas nada que espantasse público. Há duas semanas fiquei com os pés doendo perambulando de um palco para o outro em São Paulo, na Virada da capital e amanhã pretendo fazer o mesmo em Santa Bárbara, que recebe pela primeira o evento do interior paulista. Sigam-me os bons:
Abaixo uma seleção do que pretendo ver:
Sábado 21h00 - Trash Pour 4 - Música (Centro Social Urbano) 23h00 - Carmens Miranda & o Bando de Loucos - Música (Teatro Municipal)
Domingo, dia 17 02h00 - Edgard Scandurra - Música (Centro Social Urbano) 14h00 - Nocaute - Marcelo Mansfield - Teatro (Teatro Municipal) 16h00 - Violeta de Outono - Música (Teatro Municipal Manoel Lyra) 17h00 - Lobão - Música (Centro Social Urbano)
Ontem o humorista Chico Anysio deixou esse texto em seu blog, e algumas horas depois acabou sendo internado em um hospital do Rio de Janeiro. Os médicos afirmaram que se tratava de exames de rotina, mas esse texto não tem cara de despedida? Bom, espero que não...
"Estou de saída. Tive uma pneumonia na semana passada e isto me abriu os olhos para uma realidade da qual eu ainda não estava vivendo no seu todo. Mesmo depois de ter completado 78 anos eu continuava me sentido em pé, dentro da vida, tendo a impossibilidade de fazer caminhadas, pela existência do enfisema. No mais eu nem me lembrava da minha idade e chegava a fazer planos para daqui a 12, 15 anos. De um dia para o outro veio a pneumonia que, junto com “queda” é a maior causa de morte dos idosos. Em dois dias eu envelheci, quando pouco, 5 anos. Então resolvi tomar uma decisão a meu favor e tomei: estou de saída. Vou parar com todas as coisas que não sejam obrigatórias e escrever esses textos é uma delas. Estou de saída desse bloglog querido. Despeço-me dos amigos (e inimigos – embora estes sejam em número bem menor) e vou fazer uma trabalhos para os quais me contratem. Tenho 3 filmes para fazer, até agosto e farei os 3 com a maior alegria. Tenho 8 shows contratados com a Light e os farei; tenho 10 shows contratados com o Bar Brahma para os domingos, em São Paulo e os realizarei. Tenho (por enquanto) seis shows “Chico.Tom” para fazer com o Tom Cavalcante e cumprirei esta pauta e mais os outros shows que aparecerão. Do resto eu estou de saída. Deixo ai 9 filhos. 8 homens e uma princesa. Dos 8, pelo menos uns 5 atuam na área do divertissement e isto me agrada muito. Vou sentir saudade de vocês que perderam tempo lendo meus textos, como não há como não sentir falta dos que me acompanharam NO GERAL DA VIDA".
Com números não se discute. E eles mostram que o filme “E Se Eu Fosse Você 2” é um sucesso. Há alguns dias a comédia de Daniel Filho atingiu a impressionante marca de 5,5 milhões de espectadores, se tornando a maior bilheteria da chamada retomada do cinema nacional, que é contado a partir de “Carlota Joaquina” (1994), de Carla Camuratti. Sob esse aspecto, “Se eu Fosse Você 2” é a maior bilheteria da história do cinema nacional, já que longas-metragens como “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (6 milhões em 1977), “O Menino da Porteira” (7 milhões de espectadores em 1977), “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (11 milhões em 1971) e “O Ébrio” (8 milhões em 1946) pertencem a uma outra época, quando as salas de cinema não competiam com internet, videocassete e tantos outros adversários. Mesmo a televisão não oferecia a variedade de canais existentes atualmente. Quando estreou em dezembro último, os jornais receberam o filme estrelado por Tony Ramos e Glória Pires com indiferença. Os mais elogiosos apenas frisaram as qualidades “leves” do filme, destacando que se tratava de uma diversão boa para casais de namorados e família. Mas então porque tamanho sucesso? De onde vem o fenômeno que quatro meses depois ainda enche cinemas? Será que a opinião da crítica e do público está tão distante assim? As explicações são variadas, mas a principal em minha humilde opinião está no aspecto econômico. Uma pesquisa divulgada há uns dois anos pelo IBGE (Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística), apontou que no Brasil apenas a classe A e B freqüentam cinemas, ou seja, uma pequena minoria chamada antigamente de elite social. As classes médias, baixa e miseráveis não passam perto do ar condicionado dos shoppings que hoje abrigam as redes de cinema que cobram ingressos de até R$ 20 para uma sessão de domingo a tarde. Na época que essa pesquisa chegou as imprensa, a Globo Filmes lançava o filme “Antonia”, que contava a história de um grupo de cantoras de uma favela paulistana. O sistema de divulgação foi o mesmo, talvez até maior, que o de “Se Eu Fosse Você 2”, mas as salas ficaram vazias. Ninguém queria ver favela, pobreza, jovens grávidas de traficantes e tantas outras barbaridades do mundo cão, que a classe média baixa prefere ver nos jornais sensacionalistas. Já as aventuras do casal que troca de sexo na bela zona sul carioca está mais de acordo com quem tem cacife para bancar um cineminha de final de semana. Então mais do que um sinal de qualidade ou sucesso, “Se eu Fosse Você 2” é um retrato da nossa desigualdade social, e da longa distancia entre a nossa sétima arte e o povo.
Na última quinta-feira estive no Teatro Municipal Lulu Benencase, no tão comentado show da cantora Maria Rita. Apesar de não ser grande fã, foi a terceira vez que a vi ao vivo, mas foi o primeiro show que me deixou impressionado sob o ponto de vista musical. Banda afiada (talvez reflexo do final de uma turnê longa e vitoriosa) e uma acústica perfeita do local permitiu que sua belíssima voz ecoasse potente e clara. Fora que ela é naturalmente muito carismática. Sempre que alguém a ataca, acaba batendo na tecla de que ela abusa dos mesmos timbres vocais de sua mãe, Elis Regina. Não deixa de ser verdade, mas como 90% das cantoras de MPB imitam Elis na cara dura, não sei o quanto Maria Rita está errada em emular sua venerada mamãe. Pessoalmente me incomoda mais o fato dela ter criado uma cama sonora meio engessada, entre o jazz mais comercial americano e a MPB que faz tudo que ela grava em estúdio ficar muito igual, planejadamente chique no sentido asséptico da palavra e sem grandes riscos. Mas como no futebol, treino é treino e jogo é jogo. E no palco do Teatro Municipal Tudo funcionou principalmente o fato do local estar com um público menor, mas não menos caloroso.
Chamado de "O Oscar da música", o Grammy está sendo pauta de vários jornais nesta semana pois a premiação completa 50 anos nesta quarta-feira. Aqui no Brasil toda vez que alguém ganha uma estátueta do Grammy (ela já foi dada a Sérgio Mendes, Gilberto Gil, Milton Nascimento e mais alguns outros que não me lembro agora) a mídia faz festa e um puta auê. Todo artista que se dá ao respeito não liga para o Grammy. E mais: se ganhar, tem por obrigação jogá-lo fora. Eu, por exemplo, teria vergonha de recebê-lo caso fosse músico, já que sua história de 50 anos é repleta de vergonha. Estou sendo exagerado? Então vamos fazer um teste: cite uma música ou obra desses artistas: Domenico Modugno, Perry Como, Georg Solti. Não sabem quem são? Nem eu. Mas todos eles já foram premiados. Michael Bolton (foto) e Celine Dion já o receberam muitas vezes. Agora mais uma e definitiva pergunta: O que Creedence Clearwater Revival, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, The Who, Queen, Neil Young, Janis Joplin, Grateful Dead, Diana Ross, Sam Cooke e Fats Domino têm em comum, além de serem maravilhosos artistas? Eles nunca receberam um mísero Grammy. Então, não há motivo para festejarmos esses 50 anos de uma estatueta que mira o mercado em detrimento a arte, e que tem um mau gosto musical dos infernos.
Em plena era de crise fonográfica, quando os formatos físicos já estão em franco processo de desaparecimento, o músico paulista Rômulo Fróes lança um álbum duplo, "No Chão sem o Chão", com nada mais, nada menos que 34 canções. Inventivo, o trabalho (que também foi disponibilizado de graça na Internet) é uma aula de como lembrar o passado sem esquecer que é prá frente que se anda. Vale a pena conhecê-lo.
Estava eu no meio da Virada Cultural de São Paulo quando vi um grupo de atores meio que chorando, próximo ao Vale do Anhangabaú, onde estavam acontecendo algumas performances de teatro do evento. Meio de "rabo de ouvido" acabei prestando atenção na conversa de um deles, que falava mais alto, e assim fiquei sabendo que na manhã daquele sábado havia morrido Augusto Boal, um dos cinco homens mais importantes do teatro brasileiro. Quem seriam os outros? Não sei. Antunes Filho, Nelson Rodrigues, José Celso Martines Corrêa e Zembiński estariam entre eles, sem importar muito a ordem. Uma coisa curiosa sobre Boal é que diferentes dos demais citados, o teatro dele não existia sem o lado social. Talvez por ser de origem pobre, o diretor sempre viu o teatro como uma maneira de transformação social e ideologica, muito mais do que transcedental. Abaixo a letra de "Mulheres de Atenas", parceria do teatrólogo com Chico Buarque
Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.