Neste meio de semana as lojas e as internets do mundo inteiro receberam "Together Through Life", o novo trabalho de Bob Dylan. Ícone musical do século 20, Dylan tem todos seus passos artisticos analisados com atenção extrema por fãs e criticos desde que se lançou na música, em 1962. Aliás, 1962 é a data de gravação de seu primeiro disco, mas o primeiro registro do bardo americana data de 1959, através de uma fita caseira que pode ser ouvida em alguns discos piratas de Dylan. O novo álbum é uma viagem a essa época, de quando Dylan ouvia as antigas gravações da Chess e Sun Record, gravadoras pioneiras do rock, através de gravações cruas, feitas ao vivo em estúdio. Mas o retorno em 50 anos no tempo não é só encontrado na parte sonora. Olha esse clipe da faixa de abertura do novo álbum. As imagens usadas nele são de uma gangue da cidade de Nova Iorque clicada em 1959. Belissimas por sinal.
Sou americanizado! Pronto, confessei. Seria mentira negar. Adoro Rock and Roll, Literatura Beat, Jazz, Blues, Pop Art, Cinema e outros produtos nascidos naquele pedaço tão contraditório de mundo. Em nenhum outro país a palavra “contraditório” orna tão bem. Veja só: o mesmo país que no século 20 deu ao mundo as formas de arte mais libertárias da história (todas as citadas acima) elege verdadeiros asnos como George W. Bush. O mesmo país onde o movimento hippie ganhou cara pregando a paz e o amor, não consegue passar uma década sem armar pelo menos uma guerra bem sangrenta. O mesmo país onde a pena de morte ainda é tolerada como forma punitiva convive com o maior índice de violência do mundo. Uma boa forma de resolver tamanho quebra cabeça e decifrar os Estados Unidos da América pode estar no livro “Artist in Exile”, de Joseph Horowitz, que acaba de ser lançado no exterior (ainda sem previsão de lançamento aqui). Nele, Joseph, um conceituado professor de História, nos mostra como um dos países mais racistas do mundo, onde o aperthaid entre brancos e negros existe de forma velada até os dias atuais (e que elegeu um presidente negro, em mais uma demonstração de contradição) recebeu de braços abertos vários intelectuais e artistas que fugiam dos regimes totalitários europeus (nazismo, fascismo, franquismo). O livro também dá crédito a forte influência da cultura africana no País, como não podia ser diferente, pois toda a grande música americana tem sangue afro. Essa miscelânea cultural foi primordial para que a terra do Pato Donald se transformasse no que é hoje e uma prova da importância do pluralismo de pensamentos na sociedade. Charles Chaplin não era americano, mas fez suas maiores obras primas, em solo yankee. Albert Einstein também não nasceu nos Estados Unidos, mas até hoje tem gente que pensa que sim. Durante o nazismo os soldados de Hitler queimavam as obras do austríaco Sigmund Freud, enquanto na América esses livros eram publicados. Essa passagem da Historia é o que transformou o gigante americano no que ele é hoje, mesmo assim enquanto essa diversidade racial transformava a arte americana, seitas como a Klux Klux Kan perseguia negros pelas ruas. No início do rock, gente como Chuck Berry e Little Richard fugiam de seus próprios shows sob o perigo de serem queimados nas portas das casas de espetáculos onde se apresentavam. Mas a arte triunfou, e para o horror de alguns esquerdistas mais radicais a melhor música do mundo é a americana, seguida da brasileira (sem nacionalismo) e a cubana. “O resto é valsa”, como dizia Tom Jobim. Alguém lendo isso pode até bradar: “Mas as melhores bandas do mundo saíram da Inglaterra!”. Sim, da mesma maneira que jogamos o melhor do futebol do mundo (ou pelo menos jogávamos, antes do Dunga), mas quem criou o esporte foram os ingleses e não dá para tirar o crédito deles. Por isso, arrisco-me dizer que somos todos uns americanizados, sejam aqueles que se entopem de Mc Donalds ou os que exibem uma chamativa camiseta do Che Guevara. E isso é bom e muito ruim, ao mesmo tempo. Existe algo mais americano que isso?
Diferentemente de seus idolos mais diretos (João Gilberto, Tom Jobim, Glauber Rocha) Caetano Veloso, 66, não é e nunca foi um grande criador. E isso não é demérito ou crítica. O artista baiano se filia mais ao grupo de artistas ao qual pertence David Bowie, Raul Seixas e Oswald de Andrade, que têm a capacidade de captarem tendência antes que a maioria, mastigando a semente quando esta ainda se encontra fresca na terra, fazendo-a dar belos frutos como numa espécie de milagre da multiplicação da arte de vanguarda. Foi assim que ele se ligou na bossa nova quando esta ainda era “coisa de afeminado”, foi assim que saiu elogiando a jovem guarda quando Roberto Carlos era massacrado pela esquerda, e que ensurdeceu os festivais com as guitarras de “Alegria, Alegria” (1977) quando o instrumento ainda era simbolo do imperialismo norte-americano e uma afronta à cultura nacional, na visão dos puristas. E assim o filho de Dona Canô chegou aos 42 anos de uma gloriosa carreira carreira. Nem sempre ele acertou, mas brilhou o suficiente a ponto de no futuro a música brasileira poder ser divida entre AC e DC (Antes de Caetano e depois de Caetano). Posto tudo isso, é impossível não admirar “Zii e Zie”, o novo álbum do artista, pela capacidade de buscar uma nova linguagem após tanto tempo, ao se unir a um grupo de jovens músicos (Pedro Sá, Moreno Veloso, Ricardo Gomes e Marcelo Callado) e criar uma formatação para suas novas composições que um crítico já chamou de “estética do desagrádavel”, ao caminhar por distorções, andamentos disformes e letras ora ininteligiveis (“Brotou alguém/ Algum ninguém/ O quê?/ A quem?”) ou diretas demais para um Brasil dissimulado (“Eu amo e você ama/ então o indizível se divisa/ e a luz de muitos céus/ inunda a mente/ e no entanto/ diferentemente de Osama e Condoleezza/ eu não acredito em Deus”). Quem ao pensar em Caetano o julga apenas por “Leãozinho” (1977), “Você é Linda” (1983) e mesmo “Sozinho” (1999) vai odiar “Zii e Zie”, mas não foi olhando para trás ou se levando pela maioria que Caetano ergueu seu mito, entre erros, acertos e uma incençante caça pelo novo.
Saiu nesta semana a lista dos CDs e DVDs mais vendidos no Brasil durante o ano de 2008. Dá vontade chorar de tristeza.
CDs 1 - "Vida", Padre Fábio de Mello 2 - "Paz Sim, Violência Não (vol. 1)", Padre Marcelo Rossi 3 - "Borboletas", Victor & Leo 4 - "Ao Vivo em Uberlândia" - Victor e Leo 5 - "Multishow ao vivo no Maracanã" - Ivete Sangalo DVDs 1 - "Paz Sim, Violência Não (vol. 1)", Padre Marcelo Rossi 2 - "Multishow ao vivo no Maracanã" - Ivete Sangalo 3 - "Multishow ao vivo - Dois Quartos" - Ana Carolina 4 - "Infinito ao meu Redor" - Marisa Monte 5 - "Ao Vivo em Uberlândia" - Victor e Leo
Esse texto é um pouco antigo, escrito para a minha coluna de domingo aqui do LIBERAL. Mas como essa semana foi divulgado para ainda esse semestre uma série de relançamentos em CDs de obras do Wilson Simonal, e a edição de uma biografia caprichada escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre, achei que seria importante resgatar essas mal traçadas linhas sobre o homem que afundou sua carreira ao se envolver (ou não) com o regime militar.
No último final de semana fui conferir o “É Tudo Verdade”, festival de documentários que há mais de uma década traz os melhores trabalhos do segmento ao Brasil todo começo de ano. Aliás, ando impressionado com a quantidade e diversidade de filmes documentários lançados e tendo destaque nos últimos anos, mas depois eu falo mais sobre isso. A principio me desloquei até São Paulo para ver uma das sessões de “Joy Division”, do inglês Grant Gee que acompanha e detalha a história do mitológico grupo punk inglês Joy Division. Mas como todas as sessões estavam lotadas acabei partindo para minha segunda opção, o documentário “Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei”, dos diretores Claudio Manoel (do Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal. No final, fiquei feliz com o imprevisto. A obra é uma devassa na carreira de glória e queda do cantor Wilson Simonal, que em seu auge só perdia em sucesso para Roberto Carlos e após o ano de 1972 caiu em desgraça em função de um único ato mal pensado. É exatamente esse ato, explicado em detalhes no filme, que faz todo o documentário valer a pena. Filho de um Pedreiro e de uma empregada doméstica Wilson Simonal nasceu em 1939 e tinha de tudo para não ser nada na vida. Mas por um dessas ironias do destino era um talento talhado para o sucesso. Ótimo cantor cheio de ginga dava vida a canções como “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Balanço Zona Sul”, “Aos Pés da Santa Cruz” e “A Tonga da Milonga do Kabuletê”. Seus shows enchiam ginásios e as rádios tocavam seus discos a toda hora entre o final dos anos 60 e começo dos 70. O sucesso tornou o negro pobre Simonal numa estrela e diferente da maioria dos artistas com a sua cor de pele que baixavam a cabeça com os desmandos de empresários brancos espertalhões, ele era abusado e exibia seus carrões e namoradas loiras pelas festas da alta sociedade. Era um Roberto Carlos mais malandro, vivido, exibido e explosivo. Mas quis o destino que tudo isso fosse por terra e em 1971. Ao descobrir (ou desconfiar) que estava sendo roubado por um contador contratou dois agentes torturadores do Regime Militar para dar uma surra no suposto ladrão. Inocente e sem escolaridade para ponderar a leviandade de seu ato e até contando vantagem aos amigos, o fato caiu nos ouvidos de toda classe artística que não agüentava mais aqueles anos vividos sob as botas do exército. E o mundo de Simonal caiu. Aos poucos ele foi sendo deixado de lado por todos e as histórias de que era um delator de artistas para o militares piorou a situação. O filme mostra como foi a vida do cantor pelos anos seguintes: Alcoolismo, depressão e desesperadas tentativas de limpar sua barra e voltar ao que era antes. Mas não deu certo e Simonal faleceu em 2000 como pé de página na história da música brasileira. “Para ele não houve anistia”, resumiu Cláudio Manoel. Talvez “Ninguém Sabe o Duro...”, seja um consolo póstumo a esse grande artista, que de certa forma também foi vítima daqueles terríveis anos de ditadura militar.
Na última terça-feira o livro “Roberto Carlos em Detalhes”, do historiador Paulo César Araújo voltou a ter sua venda proibida nas livrarias brasileiras pela 18ª Câmara Civil do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Lançado em 2006, a obra é uma biografia não autorizada do cantor e compositor Roberto Carlos, que caiu em cima do biógrafo tão logo a obra desembarcou nas livrarias e começou a vender feito água no deserto. O Rei alegou que ninguém tinha o direito de escrever sobre sua vida, a não ser ele mesmo. Só um parêntese: Se for assim o único que poderia escrever uma biografia na seria o Robson Crusoé, que viveu sozinho numa ilha. Aliás, nem ele, porque na ilha onde ele está preso a certo momento aparece o Sexta-feira, o outro personagem do livro. Ou seja, Roberto Carlos está errado de novo. Na época, chegou-se até a cogitar que os livros apreendidos seriam queimados, o que só não aconteceu porque o ato criaria uma série de atos negativos ao cantor. Tenho o livro, que corri comprar assim que soube que ele correria o risco de ser recolhido nas livrarias. Achei que tal absurdo nunca aconteceria em um País dito democrático como o Brasil, mas achei melhor não arriscar e me dei bem. O livro é cheio de detalhes e é quase uma ode ao cantor de “Detalhes”. Fora algumas passagens inéditas, como o famoso acidente que lhe custou uma perna na infância, um “pega” dele na Maysa em 1968 e a agonia de sua esposa, Maria Rita, falecida de câncer não há nada na obra que deponha contra a reputação do Rei. No mesmo dia que o livro de Paulo César Araújo teve seu veto mantido na Cidade Maravilhosa, era lançado no Brasil outra biografia polêmica: “John Lennon – A Vida” (Companhia das Letras – Tradução: Roberto Muggiatti), do jornalista Phil Norman. Já chamada de “a biografia definitiva” do gênio inglês, a obra é um tijolão de quase mil paginas que repassa a vida de Lennon desnudando o ex-beatle, que aparece no texto de Norman como um cara complicado, obsessivo, arrogante, machista, egoísta e, apesar de tudo isso, um artista magistral, que usava todos seus problemas pessoais como base de sua obra artística sem precedentes na música popular do século 20. Há descrições de passagens assustadoras na vida do jovem cantor, que cresceu na miserável Liverpool do pós-guerra. A mãe, Julia, é descrita como uma boemia incorrigível, que o abandonou com a irmã, Mimi, para ir morar com um homem que não aceitava filho e a botou contra a parede. Ela ficou com o novo marido, em detrimento do filho. Já na adolescência do garoto, ela voltou e tinha hábitos estranhos como trocar de roupa na frente dele e até uma suposta tentativa de incesto, que no futuro renderia sérios traumas psicológicos ao compositor de “Help” (1965) , “Lucy in the Sky with Diamond” (1967) e “Mother” (1970) Todos esses acontecimentos são descritos sem sensacionalismo, com uma riqueza de detalhes baseados em depoimentos de centenas de fontes ouvidas ao longo de vários anos. É aí que entra minha observação às diferenças entre gente letrada, como Yoko Ono e o nosso “pobre” Roberto Carlos (de quem sou fã como músico, deixo bem claro). A viúva de Lennon afirmou não ter gostado da biografia de Norman. Ela foi uma das principais fontes da obra, cedendo depoimentos, imagens e conselhos. Quando o livro saiu ela leu e, desde então quando perguntada, apenas diz que achou o livro “depreciativo” e “focado em demasia” em relação a momentos tristes da vida do marido. Em nenhum momento ela levantou um mínimo de interesse em entrar na justiça ou proibir a biografia. Ela sabe que é da variedade de visões dos fatos que se cria uma lenda como a de seu eterno parceiro.
Foi divulgado nesta segunda-feira o trailer oficial do filme "Jean Charles", que chega aos cinemas em julho contando a história do jovem brasileiro morto em 2005 pela polícia de Londres ao ser confundido com um terrorista no metrô de Londres. Sei que um trailer não quer dizer nada, mas pareceu bem interessante.
Dos Dez Mandamentos de Moisés à Constituição Nacional, sem esquecer aquelas listas de “Melhores de todos os tempos...” que jornais do mundo inteiro gostam de fazer, todos tem uma receita para melhorar as coisas ao redor. Eu também tenho, e resolvi expô-las aqui. São ações simples, que tornaria o mundo cultural um lugar melhor para eu e você viver. Seria possível colocá-las em ação? Acho bem difícil, pois nesse planeta o que conta são os interesses corporativos e a grana que todo esse engodo produz, mas não custa nada tentar. Vou começar com dez, mas estou aberto a mais sugestões:
1 - A partir de hoje fica proibida qualquer dupla sertaneja ou grupo de pagode lançar CD com o titulo de “Acústico”, sob pena de serem processados por propaganda enganosa, pois nenhum dos CDs ditos acústicos são realmente acústicos.
2 - Nenhum jornal, site ou revista deve publicar uma só linha sobre Amy Winehouse se não for para falar de assuntos musicais. Ela bêbada ou batendo em gente dentro de avião deixou de ser noticias faz tempo. O mesmo fica valendo para Britney Spears quando ela sair sem calcinha.
3 - No prazo de um ano não deve aparecer mais nenhum novo comediante no estilo Stand up comedy. Os que tem aí já está de bom tamanho para manter a vertente por uns dez anos.
4 - Ninguém mais deve pedir a cantores de barzinho músicas como “Chão de Giz” (Zé Ramalho) ou “Samurai” (Djavan), que são boas, mas que ninguém aguenta na noite. Em agradecimento os músicos não mais tocarão nada de Ana Carolina, Seu Jorge ou Jorge Vercilo.
5 - Que todos os donos de aparelhagem de carro que custam mais caro que os próprios carros ganhem do governo CDs de melhor qualidade. É duro estar no transito e um deles parar ao lado ouvindo o que eles ouvem.
6 - Que a rede Globo nos poupe de um “BBB 10”. Assim o pobre do Pedro Bial fica livre do vexame de ficar citando Antoine Saint Exupéry, Cora Carolina ou Millôr Fernandes em “dia de paredão” para tentar dar um pouco de credibilidade àquilo.
7 - Que a profissão de Parapazzi seja exterminada da face da terra. Pensando bem do universo! Imagina como vai ser bom abrir uma revista e não ver mais nenhuma atriz global comprando tomates.
8 - Que no prazo de cinco anos não seja filmado mais nenhum filme adaptado dos quadrinhos. A medida é para impedir que em breve eles façam um mega produção cheia de explosões com a Turma da Mônica.
9 - Que as gravadoras passem a mentir sobre suas vendas. No Brasil faz vários anos que padres que não cantam nada e não compõem lideram o ranking de vendas de CDs e DVDs, e isso pega muito mal em um país que já teve uma música tão sofisticada quanto a nossa em um passado distante.
10 - Que a seguinte frase do músico Frank Zappa seja ensinada e analisada em todas as escolas do País: "Informação não é conhecimento, conhecimento não é sabedoria, sabedoria não é a verdade, verdade não é beleza, beleza não é amor, Amor não é música...”. Evitaríamos que um monte de gente fosse enganada no futuro, como somos hoje.
Luciano Assis, 32, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.